ÁFRICA E BRASIL

A ÁFRICA E O BRASIL
SEMELHANÇAS E PERSPECTIVAS

Misael Santos*

FALOLA, Toyin. Nacionalizar a África, culturalizar o ocidente e reformular as humanidades na África. Salvador: Afro - Ásia nº 36. 2007 PP 9 – 38.


            Falola, nigeriano, professor catedrático da Universidade do Texas em Austin. Estados Unidos, autor de vários livros como “Violence in Nigéria: the crisis of religious politics and secular ideologies” e “Nationalism and african intellectuals”. O presente texto foi lido originalmente como palestra inaugural na Conference on Rethinking of Humanities realzada em junho de 2006 na Awolowo University em Ilê Ifé, Nigéria e novamente lido na mesma conferência realizada no CEAO – Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da Bahia em 10 de agosto de 2007. Falola propõe repensar as Humanidades na  África através de uma compreensão do passado, enxergando o Ocidente com um olhar de dentro, reestruturar a produção do conhecimento, enfatizando as línguas nativas, com cuidados para com os estudantes egressos do ensino superior, para que estes não venham sofrer qualquer tipo de frustração frente aos governos. Assuntos como desenvolvimento, globalização, técnicas estatais, Ocidente e produção do conhecimento em múltiplos lugares são analisados situando o papel das Humanidades, sempre tratados de maneira que enxerguemos todo o continente e não territórios isolados. O texto possui trinta páginas subdivididas em seis seções: introdução; Humanidades e consenso social; Em busca de uma africana; Antropologizando o Ocidente; As ameaças da modernidade e Hora de fugir.
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*Discente da Universidade Federal da Bahia, Cursando Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos, aluno do Profº Drº Renato da Silveira na disciplina HACA 03 - Estudo das Humanidades, turma 08.

           
ANALISANDO O PROJETO

            O projeto enumera inicialmente os desafios de nossa época, situando-nos, como passos importantes para achar soluções e transcendê-los, são eles: desenvolvimento e seus paradigmas; globalização mais ampla e a necessidade que as Humanidades têm de remodelar; a pobreza e o poder estatal; lugares específicos de produção e seus respectivos recursos disponíveis.
            A proposta é corrigir a leitura que o mundo faz da África, principalmente o Ocidente, passar a compreender a África a partir de uma visão interna, valorizando a sua autenticidade. Para tanto as Humanidades devem enfrentar o “consenso social”, ou seja, engendrar meio para que as novas gerações possam evoluir por si mesmas, isso implica em “consumir as vigorosas pesquisas de um número maior de dissidentes, críticos e não-conformistas.” (Afro - Ásia nº36, p 16) que corresponde a enxergar o intelectual sem fronteiras ocidentais. Quanto aos acadêmicos, deve-se compreender o jogo de interesses dos líderes do Estado que não buscam soluções para a pobreza e o subdesenvolvimento. Afirma também que a África não precisa imitar o Ocidente, nem na sua forma de produção nem de consumo, ainda que os traços do capitalismo e do colonialismo estejam presentes, então cita “O passado, com todas as suas complicações, permanece relevante para o presente da África e para o seu futuro.” (Afro-Ásia nº36, p16). Também estar atento para as línguas européias e suas respectivas culturas tendo a consciência do contexto colonial.
            O objetivo do projeto seria buscar uma “africana”, um conceito novo que quer dizer basicamente um conjunto ou coleção de estudos, conhecimentos e artefatos produzidos na África e relativos a ela; traduções possíveis seriam “saber africano”, “erudição africana” ou “experiência africana”. (Afro-Ásia nº36 p.18) onde as Humanidades têm papel fundamental nesse processo dialético entre os perigos do passado; os riscos do presente e o sucesso do futuro.
            O projeto cita as demais estratégias para se alcançar o objetivo proposto, primeiro deve-se tornar a África o centro do mundo através da cartografia, mentalidade, articulação do conhecimento e teorias; empreender uma compreensão rigorosa do Ocidente a fim de se libertar da dominação; reconhecer que a transferência de riqueza para países ricos está intimamente ligada à pobreza; aplicar a estratégia ocidental de Nação, Estado e cidadania para construção da elite; chocar a realidade das tradições passadas com a realidade da modernidade ocidental; relacionar fracassos políticos com legados e verificar se as origens intelectuais estão deslocadas de modelos, instituições e das práticas dos mesmos e finalmente enfrentar a dominação política e econômica ocidental.
            Para isso, o projeto recorre a “um dos faróis dos Estudos Culturais” (Afro-Ásia nº 36 p.31) o cosmopolita indiano Arjun Appadurai que ancora com cuidado a modernidade nos “fluxos culturais globais” defendendo a necessidade de estudos sobre: Paisagens étnicas; Paisagens tecnológicas; Paisagens financeiras; Paisagens midiáticas e Paisagens ideológicas que fazem a conexão da África com o mundo.
            Do projeto se espera atitudes na pesquisa, modulando os eixos continentais de semelhanças e diferenças de religião, etnias, gênero, classe, região, ideologia e geração; nas idéias e teorias devem elevar seu status ao universal; na questão da língua entre os acadêmicos e o povo e na capacitação das mulheres. O projeto também sugere a criação do curso de Protestografia que estudará temas como resistência ao Estado colonial, pós-colonial e similares para que os estudantes possam crias estratégias para eles e para própria sociedade. Quanto às Humanidades, o projeto prevê uma educação geral e sofisticada que atenda as perspectivas e habilidades diversas criando uma “Africana’ que possa representa - lá para que as Humanidades não venham fugir da realidade no campo da circulação das idéias.
            Em suma, o projeto pode ser inspirado na seguinte frase: “Vamos sonhar grande e agir maior ainda: ao invés de mudar a África para acomodar o mundo, vamos mudar o mundo para acomodar a África.” (Afro-Ásia, nº 36 p. 37).


A NACIONALIZAÇÃO DA ÁFRICA E O BRASIL


            Se aplicássemos o mesmo projeto ao Brasil, não teríamos muito trabalho em adaptá-lo, ou seja, não haveria a necessidade de reescrevê-lo, salvo algumas particularidades, pra começar o fato de sermos um país continental, dado ao imenso território que nos cabe, nos torna vulneráveis a um projeto do tipo: Nacionalizar o Brasil e se solidarizar com a América Latina. O que quero dizer é que as Humanidades no Brasil estão aquém de atender a demanda social que o contexto histórico pré-estabeleceu e têm nos alcançado, e toda mudança em relação às gerações futuras devem ser estendidas aos demais países do nosso continente, não se obterá resultados expressivos pensando “o Brasil” e sim todos os demais países do continente, não digo nacionalizar a América Latina, pois o Brasil ficaria mal acomodado pela questão da língua. Mas, avançar em idéias e teorias sociais que alavanquem saídas para todo e qualquer tipo de dominação ocidental. Temos que parar de valorizar o gringo em nosso território, temos que parar de consumir na Europa e EUA, temos que compreender verdadeiramente nosso passado, e se arriscar no presente, do contrário no futuro iremos perdurar na condição de país potencialmente desenvolvido oscilando entre as dez maiores economias do mundo, quando hoje podemos aplicar estratégias inspiradas no projeto de Falola e em outros intelectuais, brasileiros ou não. Aplicando o conceito de “africana” no Brasil seria algo como vivenciar a “brasilidade”, o que não seria muito difícil.
            O Brasil pode estar em uma posição relativamente melhor em relação à África, mas se enquadra em todas as características descritas por Falola, comum aos países que de certo modo foram dominados pelo Ocidente, o que torna nossos desafios mais complexos, porém nossos políticos têm demonstrado maturidade e boa vontade, mas ainda estão submissos ao capital estrangeiro e todos ainda pensam presos à visão eurocêntrica.
            Então o que fazer com o Brasil de hoje? Onde acomodar tantos estudantes egressos do ensino superior? Como a fome e pobreza insistem em permanecer em nossos traços culturais? Por que a língua inglesa é tão valorizada em nosso país? Por que idolatramos carros importados? Que valor a sociedade brasileira dá aos profissionais das Humanidades? A iniciativa de mudança deve partir de quem? Do Estado? Das empresas? Da Universidade? Do ensino médio? Da classe média? De quem? Tantas são as questões que nos coloca em um “paredão” e sem coragem de encontrar respostas escolhemos por algo mais cômodo do tipo se tornar “um estranho no ninho”.