CONTRACULTURA EM AREMBEPE

OS HIPPIES E O TEMPO
A RESSISTÊNCIA DA IDENTIDADE CONTRACULTURAL
NA ALDEIA HIPPIE EM AREMBEPE-BAHIA


“Tudo que é sólido se desmancha no ar...”
Marx e Engels
RESUMO

A proposta deste artigo é analisar dialeticamente conceitos de identidade cultural para compreender a contracultura como fenômeno social, analisando a tropicália, por ser a expressão máxima da contracultura brasileira; investigar a aldeia hippie, localizada em Arembepe-Bahia, sua proposta original, a identidade de seus habitantes ao longo do tempo, suas atividades; enxergar às interferências sociais, as mudanças políticas, as dificuldades e principalmente as adaptações que a aldeia atravessou em toda sua história e por fim reconhecer o que a contracultura representou para a sociedade brasileira, como também identificar o seu legado.

PALAVRAS CHAVES: Identidade. Contracultura. Hippies. Tempo. Legado.


INTRODUÇÃO


Nas últimas décadas as Humanidades têm passado por um processo de “rearranjo atômico”, transformações sociais, políticas e econômicas que pôs em dúvida conceitos, valores e tradições, e com isso têm surgido várias manifestações que utilizando essas válvulas de escape lançam todo tipo de proposta, por exemplo: luta antimanicomial, MST, GGB, Movimento Negro, Sem-teto, etc., também as artes, a moda e a literatura passam pelo mesmo deslocamento. A origem de toda essa abertura cultural¹está na juventude dos anos 60 que ao se rebelar lutou contra o autoritarismo, o moralismo, a hipocrisia, a burocracia, o racismo, o machismo, o consumismo e o militarismo gerando “um fenômeno social de proporções continentais” (Almeida, 2010 p.1) conhecido cientificamente por Contracultura. Esses jovens ficaram conhecidos, inicialmente, nos Estados Unidos por Hippies. Por pregarem basicamente o slogan: sexo, drogas e rock’n roll; paz e amor, se recusando a se inserir no mundo adulto, ganharam milhões de adeptos no mundo inteiro, inclusive no Brasil que teve no tropicalismo a sua máxima expressão, onde os músicos Caetano Veloso e Gilberto Gil exerceram os papéis de intelectuais orgânicos do movimento, principalmente após o III Festival de Música da TV Record em São Paulo, onde as canções Domingo no Parque (Gil) e Alegria, Alegria (Caetano) ganharam destaque nacionais.

Os hippies, de um modo geral se opuseram a direita tradicional, ao capitalismo e também a esquerda da época, o comunismo, criou então uma alternativa, inspirados na liberdade sexual, sem liderança, em drogas alucinógenas, em músicas que tiravam qualquer um da órbita se refugiavam em acampamentos improvisados que deram origens as aldeias hippies. No Brasil existe uma aldeia em Arembepe, na Bahia a mais ou menos 30 kilometros de Salvador conhecida mundialmente entre os remanescentes da contracultura original e turistas. Portanto, após passar cerca de três décadas, a sociedade não é a mesma, nem a aldeia hippie, como num processo de negociação a sociedade se mesclou, aceitando novos elementos culturais, perdendo as características arcaicas, e a aldeia se adaptou aos novos tempos, novas gerações de hippies, novos comportamentos, de certo ponto de vista tanto a cultura como a contracultura evoluíram mutuamente de maneira que se o mundo hoje é fragmentado devemos isso aos hippies e a sua ousadia, de encarar as tradições e as opções e não aceita-las, claro que foi um movimento espontâneo o que confirma a sua autenticidade.
Tudo que a contracultura e os hippies representaram e representam podemos identificar em nossos dias através de um verdadeiro legado cultural. Com isso a demonstração de um exemplo localizado em solo baiano, não é um caso isolado, um ponto turístico, e sim um elemento contracultural cuja compreensão abre horizontes na visão de mundo do sujeito.

1 “...Sem documento”, porém com identidade

A identidade cultural em si mesma é uma questão complexa, faz-se necessário ter uma visão dialética das suas concepções e entender o que a cultura ocidental imprime atualmente. Citaremos três concepções de identidade que ao longo da história da humanidade foram utilizados, que S. Hall, um dos estudiosos sociais mais importantes, cita resumidamente:

a) Sujeito no Iluminismo:

"O sujeito no iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão de consciência e de ação, cujo “centro” consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou “idêntico” a ele – ao longo da existência do indivíduo"
.
b) Sujeito sociológico:

A noção do sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com “outras
pessoas importantes para ele” que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitava
b) Sujeito pós-moderno:

O sujeito pós-moderno não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.
Com isso, podemos compreender, ainda que superficial, como o sujeito atual se identifica, mais fica uma lacuna, o que aconteceu na passagem do sujeito sociológico para o sujeito pós-moderno? Qual o fenômeno? Porque a fragmentação atual? Como explicar a mobilidade do sujeito atual, no que tange a sua identidade? Por onde a concepção de identidade evoluiu? Tantas questões se extraem dessas concepções que primeiro deve-se voltar à década de 60 do século passado, enxergar as relações sociais e o que a juventude produziu e reflete até os dias atuais, destacando a identidade do sujeito pós-moderno, e suas derivadas.

2 Contracultura

No final dos anos 60, eclodiu um movimento de jovens americanos que se rebelaram contra os principais valores do sistema, denominado Contracultura. Um verdadeiro fenômeno social que deu novos rumos para as gerações futuras, apesar de não ser baseado em luta de classes, tinha na maioria de seus adeptos originados na classe média conhecidos mundialmente por hippies.

Dentre as principais características da contracultura e dos hipiees podemos destacar que sua origem está associada aos beatnicks, representados por escritores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Willian Burroughs, Herman Hesse, Paul Goodman, e teóricos como Marcuse e Marx. Tinha mandala como símbolo; paz e amor, sexo, drogas e rock’n roll como slogans; nos quadrinhos tinha Robert Crunb e a revista Zat, com o personagem O gato Fritz; na música tinham nada menos que os Beatles, Pink Floyd, Jim Morrison, Jimi Hendrix e outros. Pregava a liberdade sexual, o uso de drogas ilícitas, principalmente as alucinógenas e tinham no zen-budismo a sua religião. Contudo, o contexto histórico que os Estados Unidos viviam com a guerra do Vietnã, favoreceu e motivou a juventude a se rebelar. Não era uma luta política, nem violenta, era uma “curtição” que tomou proporções gigantescas se transformado numa verdadeira revolução cultural diante das opções que o sistema oferecia. 
No Brasil não foi diferente, vivíamos o início da ditadura militar e manifestamos através da música os fundamentos, os alicerces de nossa Contracultura através do movimento que foi a maior expressão cultural da modernidade – o Tropicalismo. Tendo Caetano Veloso e Gilberto Gil como os principais mentores criaram a versão hippie brasileira, uma vez que não concordava nem com a ditadura, nem com a esquerda comunista, não pregavam a luta armada, não era a favor do consumismo nem do comunismo, então o que eram? Qual o sentido que faziam? Na verdade, eles romperam com música popular da época, música que a elite consumia, apresentaram a novidade dos efeitos eletrônicos, usavam a guitarra e suas letras não retratavam a classe média e sim o popular. A Contracultura e o tropicalismo foi uma nova forma de pensar o mundo, onde o desbunde tornou-se uma perspectiva capaz de romper com a lógica racionalizante tanto da direita quanto da esquerda. 
3 Arembepe, reduto hippie no Brasil

No estado da Bahia, a cerca de 30 quilômetros da capital, Salvador está localizado o que hoje é considerado o maior ponto turístico do Litoral Norte baiano – a Aldeia Hippie de Arembepe. Primeira comunidade hippie no Brasil, na verdade a aldeia é hoje o remanescente de Woodstock, lá pelos finais dos anos 60 e início dos anos 70 o local ficou conhecido no mundo inteiro; entre os seus habitantes mais ilustres estão o cineasta Roman Polanski, a cantora Janis Joplin e o cantor dos Rolling Stones Mick Jagger.

A aldeia é cercada pela praia de um lado e pelas lagoas do rio Capivara do outro, além de ser formada por dunas repletas de coqueiros, não há água encanada, nem energia elétrica. Há cerca de 20 cabanas com garrafas de vidro aparentes no lugar de tijolos ou são feitas de barros ou de palhas e ripas de madeira. A preservação do local é impressionante, e atualmente existe um centro de artesanatos, que os moradores locais utilizam para vender brincos, colares, pulseiras e outras peças feitas com sementes, couro, pedras e dentes de animais. Após mais de trinta anos desde que os primeiros hipiees se estabeleceram nolocal, se percebe que muita coisa mudou, os hipiees tiveram que se adaptar para sobreviver e manter a identidade adquirida, na verdade a identidade hipiee atual está fragmentada, deslocada, pois criaram o FICA Festival Internacional de Cultura Alternativa de Arembepe, inspirado no Festival de Musica de Woodstock que acontece todo ano no mês de Janeiro durante a Lua Cheia, com apresentações de diversos artistas.

4 Intempéries culturais

Sabemos que no decorrer da história o quadro político-econômico do mundo foi transformando-se aos poucos, e no Brasil a ditadura militar deu passagem a democracia desde 1986, a economia também passou por mudanças principalmente através da globalização e ainda assim os poucos hipiees sustentam a idéia de uma vida alternativa, longe da tecnologia, dos shopping centers, das Mc’donalds, C&A, e até mesmo distante de uma universidade, contudo, se transformaram em algum tipo de espécie cultural ameaçada de extinção, peças raras de um museu ecológico, que turistas do mundo inteiro e do Brasil vem conhecer. É preciso salientar que da proposta original da Contracultura só ficou a lembrança, que até mesmo Caetano e Gil estão distantes dos fundamentos e ainda assim a Aldeia Hipiee de Arembepe resiste.

O tempo passa e com ele as gerações, e as novas gerações de hipiees tem se distanciado o bastante da Contracultura. Fatores desagradáveis aparecem, visitantes indesejáveis aparecem, jovens deturpados que não possuem o discernimento se autodenominam hipiee e vão acampar na aldeia sem noção do que a aldeia representa, falta com respeito a nossa história, e até a história do mundo ocidental, se a aldeia é algo digno de admiração deve-se a saída que seus ancestrais encontraram para fugir da demagogia da direta e da hipocrisia da esquerda, lógico que eles não queriam contaminar toda a humanidade com essa comunidade alternativa, mais que todos jovens que fossem contagiados encontrassem outros locais e criassem novas aldeias.

5 Considerações finais

A Contracultura, o tropicalismo e os hipiees representaram uma geração que se recusara a herdar dos pais tudo aquilo que estes conheciam de mundo, na política, na música, no teatro, nos quadrinhos, no sexo, no uso de drogas enfim, a insatisfação com as opções que os pais davam aos filhos não deixou outra saída, se não a de recriar instantaneamente o mundo.

Com este fenômeno as humanidades devem voltar seu olhar para a identidade cultural atual, pós-moderna, contemporânea, e outras designações e entender porque hoje a identidade é fragmentada em minorias, melhor dizendo, a Contracultura após décadas deixou um verdadeiro legado para as humanidades, no campo da política. Podemos citar a luta dos sem-terras, sem-sem tetos, sem-roupa, a luta das feministas, dos homossexuais, dos negros, dos loucos etc.; no campo da música podemos enxergar as derivadas da tropicália, porque não? O axé music, o pagode, na nova MPB, no campo do comportamento também a Contracultura influenciou diretamente a liberdade sexual, o vestuário, a linguagem, a disseminação do uso da maconha, com certa tolerância por parte das autoridades é claro; há quem diga até que a Contracultura modificou o modo do brasileiro se alimentar.

Pontos positivos ou pontos negativos, em realidade, não se podem mensurar a Contracultura, não se pode atribuir valores morais a este fenômeno, pois qualquer tentativa estaria entrando em choque com tudo aquilo que ela representava e representa até hoje. Se condições históricas favoreceram deve-se enaltecer e não criticar, do contrário como a sociedade hoje estaria tendo apenas duas opções: a direita conservadora e a esquerda guerrilheira, de forma alguma se pode encontrar soluções alternativas para tudo e utilizar elementos culturais como armas, basta contar com a boa vontade da classe média e a ignorância das classes mais baixas, e então, teremos alternativas para a realidade que se apresenta diante de nossos olhares. A razão pela
qual a aldeia hippie tem sobrevivido é a própria mobilidade, fluidez da identidade daqueles que se propõem a uma viver em uma comunidade alternativa, assim o tempo e todas as suas intempéries não conseguiu desmanchar no ar esta experiência, que a vida agraciou a Bahia com mais uma manifestação cultural autêntica.

REFERÊNCIAS


Almeida, Armando. A contracultura – ontem e hoje, 2010.

Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. DP&A, Rio de Janeiro, 2002.

Pereira, Fabiana de C. Gonçalves. A construção do desengajamento; tropicalismo e
ideologia (1967-1973). Mídia e Política, 2010.

Silva, J.M. Apresentação de trabalhos acadêmicos. Normas e técnicas. Petrópolis:
vozes, 2009.

http://ivanhegenberg.blogspot.com/2006/2007/contracultura-e-arte-dos-anos-60.html

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2002/020828_pauloep.shtml

http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL1267316-7084,00-G+VISITA+O+ULTIMO+REDUTO+HIPPIE+DO+BRASIL+EM+AREMBEPE+NA +BAHIA.html

http://www.pida.com.br/colunas/resistencia/2010/02/aldeia-hippie-emarembepe/