OLODUM



OLODUM:
AS DIMENSÕES DO SAMBA-REGGAE
NUM MUNDO GLOBALIZADO


Misael Santos*


Antigamente a cidade era o mundo
Hoje o mundo é a cidade
Simõnides de Ceos

                          

RESUMO


No que se segue, traz uma proposta de artigo onde primeiro se desloca o conceito geográfico de cidade para um conceito cultural analisando as culturas urbanas diante da globalização, segundo a partir desta visão situa a cidade do Salvador que diante da diversidade cultural soteropolitana, onde entre tantas produções originais está o samba- reggae, retrata o seu ícone mundial – o Olodum, logo será abordado não só o trabalho artístico, como também político e educacional considerando o contexto histórico pelo qual tem passado, isto é, da sua explosão universal como um fenômeno artístico baiano no final do século XX até os dias atuais na pós-modernidade.

PALAVRAS-CHAVES: Cidades. Cultura. Salvador. Samba-reggae. Pós-modernidade.

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Graduando da Universidade Federal da Bahia, discente do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Prof. Milton Santos, aluno da Profª Drª Marilda de Santana na disciplina HACA 36 - Estudo das Culturas, turma 01.


INTRODUÇÃO


            O assunto desta proposta de artigo é uma cultura urbana, originada na cidade do Salvador – o samba reggae, mais precisamente o que hoje é conhecido como Grupo Cultural Olodum. Abordando sob o ponto de vista de que o Olodum integra o Movimento Negro que não se limita apenas às suas músicas, como operam no campo das artes cênicas e na educação politizando todos aqueles que o integram, além de incentivar e influenciar toda a cultura negra no mundo globalizado.
            Muitos trabalhos científicos já foram publicados com o tema culturas urbanas ou culturas negras em Salvador, alguns até foram lidos com a finalidade de obter conhecimento crítico acerca do assunto, como não foi encontrado nenhum deles que de forma explícita discutisse a ligação entre cultura negra e globalização, seguem essas linhas sob esta visão.
            O tema foi escolhido por analogia com o movimento hip hop do Bronx em New York que se difundiu por todo mundo ocidental, bem como o mangue beat de Recife, que são consideradas culturas urbanas elaboradas e produzidas nas ruas, que no Brasil se transformaram em espécie de fenômeno social de caráter solidário e de conscientização, principalmente das camadas populares. O que é o Olodum hoje? Essa é a questão principal do presente texto, para tanto partimos da hipótese de que o Olodum atual transcende o conceito de ONG, com isso objetiva-se compreender, ainda que superficialmente, o significado do Samba reggae e do Olodum em tempos de pós-modernidade.
            Utilizando de conhecimentos adquiridos com experiência de Vida¹, somando às leituras de livros e artigos acadêmicos, mais visitas a sites na internet, foi construído em pensamento que parte do deslocamento do conceito geográfico de cidade, para um conceito cultural, não entrando em questões históricas, para não perder o foco, nem abordando aspectos político-econômicos, apesar de fazer um “link” com a globalização no sentido cultural da palavra.
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¹ Considerando que na década de 90 o pelourinho era uma referência cultural na cidade do Salvador e que o autor deste trabalho frequentava às “terça da bênção” e os ensaios do Olodum, no domingo à tarde, além de freqüentar a Casa do Olodum em outros horários, acredito ter o mínimo de competência para discorrer sobre o assunto.


 1 As cidades


            Para se compreender o assunto aqui discutido, faz-se necessário se desligar de conceitos imputados nas mentes dos seres humanos por diversas gerações. Um destes conceitos é o que chamamos “cidades”, portanto o conceito geográfico de “cidades” será deslocado e apresentado aqui como um conceito cultural. As cidades não é apenas uma reunião de aldeias, como diz Aristóteles², mais um lugar que por excelência acontecem trocas e negociações culturais.
            Antigamente as cidades tinham fronteiras, muralhas que cercavam os limites territoriais, por uma questão de defesa, ou mesmo por egocentrismo de seus cidadãos, principalmente dos seus reis, atualmente, porém o limite das cidades é mera convenção, pois num mundo globalizado em que vivemos, e considerando a pós-modernidade e o advento da internet, o termo cidade é compreendido de forma tão ampla que alguém que se encontra em Tóquio, por exemplo, pode se sentir na mesma cidade que um aluno da UFBA – Universidade Federa da Bahia, em Salvador.
            É nas cidades que ocorrem os diversos fenômenos no campo da mestiçagem, abrangendo diversas searas como a política, etnia, religião, economia, moda e artes em geral, com destaque para a música denominada “popular”. Lógico que as densidades demográficas das cidades são fatos relevantes, mas não está em discussão aqui o que atrai tantas pessoas para um mesmo local, nem as diferenças sociais acarretadas por este fato e sim o que acontece culturalmente.
            Contudo, as diferenças sociais nas cidades são gritantes, e por herança da contracultura a fragmentação social dos seus cidadãos é percebida a quilômetros de distância, isto é, nas cidades atuais não existem mais as “aldeias”, porém surgiu o conceito de “tribos urbanas” que não tem o mesmo significado, mas guarda o mesmo sentido. São os grupos que lutam por objetivos diversos, comum a seus integrantes, que muitas vezes participam de vários grupos. A título de exemplo são os grupos da luta sindical, os grupos de homossexuais, os grupos antimanicomiais, os grupos negros, e tantas outras “minorias” que surgem principalmente em ambientes urbanos, ou seja, que se originam nas cidades.

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² Aristóteles, A Política

            No Brasil existem muitas cidades, verdadeiras megalópoles onde são pólos de produção de culturas jovens dentre as quais podemos citar: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Manaus, Recife e tantas outras inclusive a que iremos destacar neste trabalho acadêmico – Salvador.


2 Roma Negra


            A primeira cidade organizada oficialmente no Brasil, em 29 de março de 1549, Salvador foi transformada em capital e sede da administração colonial até 1763. Povoada inicialmente por indígenas, franceses, portugueses e mais tarde africanos. Esta cidade que guarda segredos importantes da história cultural das Humanidades é atualmente a terceira cidade mais populosa do país, considerada como a cidade que contém o maior número de afrodescendentes, ou ainda, a cidade que abriga o maior número de negros fora do continente africano, haja vista já foi chamada de “Nova Guiné” ou “Roma Negra”.
            A presença do negro é tão marcante em Salvador, tão presente nas culturas dessa cidade que é impossível falar ou escrever sobre a capital da Bahia sem visualizar a religião, a música, a capoeira, a dança e enfim, a grande massa negra e simpática que contagia toda a cidade. Nas religiões se destacam o catolicismo, com 365 igrejas católicas, o candomblé, os protestantes ou evangélicos e o espiritismo, em todas a presença dos negros é significante, com destaque para o candomblé, explicado pela própria origem da religião. Nas músicas, a influência dos negros é determinante não importa o estilo ou gênero musical, todas as produções têm traços culturais do negro, no demais a própria mestiçagem soteropolitana não seria a mesma sem a presença do negro enquanto etnia.
                        Salvador como todas as cidades em tempos de globalização e pós-modernidade têm passado por adaptação, na verdade essa cidade tem sofrido um deslocamento cultural, natural de início de milênio, algo ainda indefinível para se afirmar numa Nova Era das humanidades, porém que já começar a dar sinais da fragmentação sócio-cultural vindoura. Todas essas questões são de natureza global e não localizada, algo maior que imprime no povo soteropolitano uma necessidade de repensar a cidade. Os antigos centros perderam a força, novos shopping centers surgem em dimensões globais, a cidade tende a ser povoada em direções imagináveis, diversas faculdades e universidades aparecem no cenário, contribuindo para que a juventude, principalmente uma coorte de jovens entre 17 e 25 anos, alcance o nível superior com mais facilidade, aumentando assim a quantidade de alunos egressos do ensino superior a cada semestre.
            Toda a paisagem cultural de Salvador se transformou, novas casas de show substituem às tradicionais, por exemplo, o Bahia Café Hall em plena Avenida Paralela têm desbancado locais como a Concha Acústica do Teatro Castro Alves, sem falar nos novos cinemas que instantaneamente têm provocado o fechamento de cinemas como o Glauber Rocha, Cine Bahia, Arte I e Arte II. Outro elemento importante são as casas de evento empresarial, com toda estrutura oferecida com certeza irá provocar a obsolência dos tradicionais centros de convenção.
            Por outro lado, a violência nessa cidade tem sido assunto cada vez mais discutido por seus habitantes e as autoridades vigentes, sem falar no papel da mídia, principalmente a local, que atualmente faz um papel de propagador da violência e da marginalidade, onde na maioria das vezes associam a outro mal do século XX – o narcotráfico.
            Muitas vezes podemos cometer o erro de pensar que Salvador está se transformando em uma cidade inanimada, não está acompanhado a velocidade da globalização, percebendo que “ficou para trás”. Entretanto, é necessário ter cuidado com essas conclusões para não embargar o processo de “contemporanização” de nossa cultura. Diante de tantas mudanças, é impossível diagnosticar esse fenômeno de inicio de século.
            Não são poucos os estudiosos e pesquisadores que tem a cidade do Salvador como objeto de estudo, porém é preciso antes de qualquer passo é preciso se situar na seara das Humanidades afim de que a compreensão advinda não tenha caráter fútil e demagogo, mas que seja produto de observações atuais que possa trazer determinadas tendências para a nossa cultura.        
            Contudo, Salvador se transformou, nos últimos tempos, em um dos pólos turísticos mais importantes do Brasil, competindo diretamente com o Rio de Janeiro na atração de turistas nacionais e internacionais, principalmente na estação verão onde as praias ficam superlotadas, os hotéis ficam esgotados e muitos moradores alugam a própria casa devido ao grande número de pessoas que visitam ou passam uma temporada na cidade. Portanto, a cidade se transforma numa verdadeira Babilônia cultural, são japoneses, americanos, espanhóis, franceses, latinos, italianos, africanos, indianos e outros povos e nações, além de paulistas, paranaenses, brasilenses, cariocas, mineiros e outros patrícios que vêm até esta cidade por curiosidade ou por referência.
            Praticamente o turismo da cidade gira em torno de festas populares, pois o povo soteropolitano é muito festivo, por exemplo, a festa de Iemanjá que acontece no dia 2 de fevereiro na praia do Rio Vermelho, a Lavagem do Bonfim, que também é chamada de festa de Oxalá, ocorre todo ano na segunda quinta-feira de janeiro, com procissão que sai da Igreja da Conceição da Praia e vai até a Igreja do Bonfim, na Ribeira.
            A maior referência da cidade do Salvador é o carnaval a maior festa popular do mundo, transmitida ao vivo pra todo globo terrestre, por satélite ou mesmo através da internet. Acontece entre fevereiro e março, começando oficialmente na quinta-feira ate a quarta-feira de cinzas. Distribuídas em vários circuitos, como o Campo Grande – Praça Castro Alves; a Barra – Ondina e o Pelourinho – Rua Chile, além de existir palcos alternativos em alguns bairros da cidade como Peri Peri, Liberdade, Cajazeiras, Pau da Lima e Itapoan.
            Nos circuitos do carnaval existem blocos fechados, particulares e blocos com trios independentes, isto é, sem cordas, nos diversos blocos fechados se desfilam milhões de foliões com abadá, ou camiseta para identificação. São blocos de todo tipo, para todos os gostos, para todos os critérios, ou melhor, para todas as classes sociais e dos mais variados preços. Existem blocos tradicionais como O Camaleão, Corujas, entre outros; blocos de samba; blocos de pagode; blocos de travestidos como As Muquiranas; blocos alternativos blocos afro como o Ilê Ayê e o Olodum.


3 Olodum, deus dos deuses


            Dentre os múltiplos gêneros musicais originados na Bahia e, em particular em Salvador se destacam o axé music, o pagode, o samba e o samba-reggae, a cerca deste último será abordado e discutido, não o gênero em si, mas o contexto que deu origem e a sua ligação com os blocos afros, principalmente com o bloco afro Olodum, que se transformou no maior fenômeno afro do mundo, consequentemente se tornando o maior ícone do samba-reggae no universo musical.
            Como o samba-reggae e o Olodum estão intrinsecamente ligados e compreendendo que ambos em sua constituição agregam três elementos essenciais para o estudo das culturas, sendo a mestiçagem, a juventude e o ambiente urbano, fazendo um link com a globalização, será feito um ensaio sobre o Olodum a partir de então.

 3.1 Resumo histórico
 
            Em 1979, um grupo de jovens negros residentes há anos no Maciel-Pelourinho, cria uma pequena entidade carnavalesca chamada Olodum, seus ensaios eram realizados numa quadra no fundo do Teatro Miguel Santana. Em 1981 o bloco exalta a história da Guiné-Bissau, com destaque para Amilcar Cabral, líder da revolução dos anos 70-80. No ano de 1982 o enredo falando sobre a Nigéria desfila no carnaval com mais de duas mil pessoas. Em 1983 o bloco não desfila, mas com a chegada de João Jorge e Neguinho do Samba “nasce o Projeto Runfar dos Tambores, o Jornal do Olodum, os cursos afro-brasileiros e a idéia de educação para a liberdade. Nasce a Banda Mirim Olodum” (Rodrigues, 1996 p. 13).
            Logo aconteceu uma reviravolta nos objetivos iniciais e ficou decidido que o Olodum não seria apenas um simples bloco carnavalesco e em 1984 volta a desfilar, dessa vez com pouco mais de cem pessoas homenageando a Tanzânia no enredo Aldeias Ujaamanas que incendeia a cidade do Salvador. Em 1985 o Bloco Olodum sai com o tema Moçambique e Revolta dos Búzios, neste mesmo ano adquire um velho casarão na Rua Gregório de Matos para a sede da organização. No ano seguinte deixa de exaltar a África, mas não a própria etnia e passa a ter como tema o povo negro de Cuba, que levou o Olodum ao segundo lugar do carnaval na categoria afro, deixando a comunidade do Maciel - Pelourinho eufórica, atraindo a visita de muitos estrangeiros para o centro-histórico.
            Já em 1987, surge à consagração e afirmação do bloco, com o tema Egito o Olodum arrasa no carnaval onde a canção Faraó, divindade do Egito “se transforma no maior fenômeno da mídia que a cidade viveu nos anos 80” (Rodrigues, 1996, p.15). Levando o Olodum a gravar o seu primeiro disco, com mais de cinquenta mil cópias vendidas. Ainda assim o bloco ficou em terceiro lugar no carnaval. No ano de 1988 o tema foi outro sucesso – Ilha de Madagascar, com a canção Madagascar Olodum, lançando seu segundo disco – Núbia, Axum, Etiópia. Nesse mesmo ano o Olodum lidera protestos contra a comemoração dos Cem Anos de Abolição na Bahia.
            Em 1989, o Olodum recebe o Prêmio Sharp de Música, no Rio de Janeiro, completa dez anos e grava o seu terceiro disco – Do deserto do Saara ao Nordeste Brasileiro onde a música Revolta Olodum se transformou no hino do carnaval baiano do ano seguinte. Também em 1989 o Olodum defende a criação de um capítulo sobre o negro na constituição do Estado da Bahia. É em 1990 que o Olodum conhece a Europa principalmente a Inglaterra e a Escócia como também o clipe gravado em 1988 com o cantor Paul Simon aparece nas televisões de 140 países, se transformando “no mais novo e em um dos mais bem sucedidos produtos de exportação brasileira” (Rodrigues, 1996, p.17).
            O ano agora é 1991 e o Olodum lança o disco: Da Atlântida à Bahia, o mar é o caminho com participação de Jimmy Cliff. Faz a segunda turnê internacional, 750 mil pessoas ouvem o Olodum no Central Park, ao lado de Paul Simon. Realiza-se o seminário você sabe a cor de Deus? Surge a boutique do Olodum e o Bando de Teatro. No FEMADUM do mesmo ano o Olodum traz à Bahia Harlem Desir do SOS racismo da França, além de participar da recepção a Nelson Mandela e faz um grande Show na Praça Castro Alves para receber o líder negro da África do Sul. Em 1992 o grupo intensifica as viagens ao exterior: Argentina, Chile, Japão, Dinamarca, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Noruega, Suíça, Canadá e Alemanha.
            Já em 1993 e 1994, lança o disco A música do Olodum com os sucessos Berimbau e Avisa lá, lança também o álbum O Movimento onde a canção Requebra em hit do carnaval. Participa também de inúmeros seminários no exterior sobre questões raciais e direitos humanos. É lançado o primeiro livro da Editora Olodum – De Bloco Afro a Holding Cultural, de autoria de Marcelo Dantas. É inaugurada a Fábrica de Carnaval e a Escola Criativa Olodum além de lançar o primeiro disco da Banda Mirim Olodum. O ano de 1995 é marcado pela realização de um dos maiores carnavais de sua história, o carnaval dos filhos do Sol com 4200 pessoas desfilando no “maior bloco afro do mundo” (Rodrigues, 1996, p.19), faz diversos shows na Europa, Japão e Estados Unidos. Lança na Praça Castro Alves o novo disco Sol e Mar com mais de cem mil pessoas e celebrando os 300 anos de imortalidade de Zumbi dos Palmares.
            Nos últimos anos, porém questões externas tentam ofuscar o brilho do Olodum, afastando da Mídia, muitos membros da banda partiram para carreira solo, como Tatau e Lazzo Matumbi, outros se tornaram evangélicos desfalcando o grupo. Embora esses eventos tenham ocorridos o Olodum ainda hoje se mostra inabalável principalmente depois da gravação de um vídeo clipe com o pop star americano Michael Jackson, em 1996, que afirmou mundialmente o sucesso do grupo. Além de nas últimas copas do mundo de futebol desempenhar o papel de carro-chefe da torcida brasileira.

3.2 Ação cultural

            Após um período sem atividades no carnaval, no ano de 1983, o Olodum repensou sua existência enquanto bloco de carnaval repensou o processo político, social, cultural educacional do movimento negro, social e da própria situação em que se encontravam os moradores do Maciel - Pelourinho, “uma área marginalizada até pela população negra da cidade do Salvador” (Rodrigues, 1996 p.23), na verdade o bairro era ocupado por pessoas das classes C e D, o que retratava a dura realidade do local. O que faze diante desse quadro crítico? Qual a proposta do Olodum para modificar aquela paisagem cultural?
            Os passos dados pelo Olodum tinham o objetivo básico de “formar uma nova geração de quadros para o Olodum, para o movimento negro, para o movimento social, para o país.” (Rodrigues, 1996, p.23). Ora, o sucesso dos blocos de carnaval em geral é efêmero e limitado, no entanto o Olodum se diferenciou com “um conglomerado de atividades culturais de cunho sócio-comunitário, com projeção internacional” (Rodrigues, 1996 p.35). Logo o Olodum foi transformado em Grupo Cultural Olodum, com estatuto e registro, sendo reconhecido como de utilidade pública nos viveis municipal e estadual. Depois como uma ONG o Grupo Cultural Olodum se subdividiu em duas vertentes a Fundação Olodum (sem fins lucrativos) e o Bloco Olodum (empresa).
            A Fundação Olodum tem como base de ação a área de projetos onde se destaca o Rufar dos Tambores e a Escola Criativa Olodum, que envolvem desde o intercâmbio internacional até o grupo de dança e o Bando de Teatro Olodum, sendo que a Escola Criativa oferece uma formação complementar à escola convencional às crianças da comunidade do Maciel – Pelourinho.
            Ainda conta com o FEMADUM – Festival de Músicas e Artes do Olodum que todo ano acontece no Pelourinho onde são revelados vários talentos e onde muitas músicas caem no gosto do público baiano levando muitas vezes a gravação das mesmas pela Banda. Já o Bando de Teatro Olodum há algum tempo se desprendeu do grupo enquanto empresa, porém tem se consagrado nacionalmente com revelações de nomes como Lázaro Ramos e de filmes como Ò pai ó.

3.3 A luta anti racial

            O Olodum exerce vital importância para a luta contra todo tipo de descriminação racial, não só no estado da Bahia, como também no Brasil e porque não afirmar em todo o mundo. Com propostas de conscientização para a juventude negra local trazendo conhecimentos diretamente da África, através de seus pesquisadores, o Olodum participa da Cenba – Conselho das Entidades Negras da Bahia promove eventos marcantes como o dia da consciência negra em 20 de novembro, a qual atrai dezenas de milhares de pessoas todos os anos.
            Mais a luta do Olodum não se limita às letras de suas músicas, atinge também o próprio Jornal do Olodum que informa seus membros acerca do mundo sob o ponto de vista anti-racista. A inclusão de um capítulo na Constituição do Estado da Bahia sobre o negro já demonstra a sua força no que diz respeito a todo o movimento negro.
            A própria origem do Olodum, enquanto bloco de carnaval, já demonstra essa luta, os negros de uma forma geral eram descriminados e não conseguiam desfilar em blocos tradicionais do carnaval de Salvador, o que incentivava a iniciativa da formação dos blocos afros.

3.4 A ONG

            O Grupo Cultural Olodum é uma organização não governamental que tem como produto básico a cultura enquanto expressão de origem, história e cotidiano da população negra do Maciel – Pelourinho. Em realidade o Olodum é mais que um movimento associativo e se diferencia das ONGs típicas ao apresentar uma característica empresarial muito forte, ao mesmo tempo em que propõe o resgate da auto-estima e das tradições da população negra.
            A própria revitalização do centro histórico de Salvador partiu da iniciativa do grupo, quando este adquiriu um casarão na Rua Gregório de Matos, e para recuperá-lo precisou fazer um projeto arquitetônico, que mais tarde serviu de base para a prefeitura e para o Estado restaurar outros casarões coloniais.
            A cultura organizacional do Olodum foi construída a partir da forte orientação da identidade cultural negra e foi apoiada nos mitos da negritude reinterpretados e atualizados. A ONG que surge então contracena com o poder público e com outras instâncias do poder que permite ao mesmo tempo espaço de conflitos e possibilidades de ação. E nesse caso o Grupo Cultural Olodum passou a ser chamado com muita propriedade de Holding Olodum.
            Do lucro de cada empresa do Grupo, um percentual é destinado à empresa-mãe, que não tem fins lucrativos e que investe em formação e treinamento de mão-de-obra, educação comunitária, pesquisa e outras ações culturais, conseguindo diminuir os índices negativos de nos indicadores de qualidade de vida da população do Maciel – Pelourinho. A cultura é resgatada no tempo, de modo a viabilizar com sua força a reversão a situação secular de opressão, miséria, ignorância e exclusão que a população local parece estar predestinada.

3.5 A ligação com o Candomblé

            A origem do nome do Grupo, ou seja, a própria palavra Olodum remete ao Candomblé, mais precisamente a uma entidade que não admite que lhe seja prestado qualquer tipo de culto – Olodúmaré reina acima dos orixás como um deus supremo, está fora do alcance da compreensão humana, ele mesmo criou os orixás para governarem e supervisionarem o mundo. Dessa forma, Olodúmaré aceita julgar as desavenças que possam ocorrer entre os orixás.
            Assim o Grupo Cultural Olodum está diretamente ligado a entidade máxima do Candomblé, demonstrando que seus fundadores detinham algum conhecimento e até mesmo praticavam o Candomblé como religião. Naturalmente a religião foi um elemento de unicidade na formação do grupo.
            De outro caso o Olodum comprou uma briga com a Igreja Universal do Reino de Deus, quando esta promoveu uma passeata no dia 14 de agosto de 1989 desafiando a religião do Candomblé acusando os terreiros de assassinar crianças. O Olodum junto com outros grupos acionou a justiça acusando a Igreja de crime contra a liberdade religiosa e realizou quinze dias depois através da juventude negra uma passeata no mesmo local com um número maior de pessoas.
            De certo ângulo cultural é impossível dissociar qualquer bloco afro do carnaval de Salvador com o Candomblé. Seus dirigentes geralmente são filhos de santo, se não forem algo maior na hierarquia dessa religião, o que é perfeitamente normal já que se trata de cultura afrodescendente, ou ainda de uma cultura afrobaiana, de suma importância para afirmação da identidade cultural do negro no mundo, pelo menos até o século passado.


4. A guisa de conclusão


                        “Negros conscientizados
                        Cantam e tocam no Pelô”
                                                                       Itamar Tropicália.

            O mundo não seria o mesmo sem o Olodum, essa é uma verdade que devemos admitir, conhecendo toda a trajetória da formação do povo brasileiro, compreendendo que essa mesma formação criou entranhas de discriminação e preconceito gerando a marginalidade como filho unigênito e que este atinge maciçamente o povo negro do nosso país, e em particular em Salvador. Surge no horizonte uma proposta diferente das tradicionais, diferente dos outros blocos afros, diferente das outras ONGs, diferente até mesmo do discurso.
            A conscientização do negro não ficou limitada as fronteiras da cidade, nem do estado nem mesmo do país. O Olodum foi buscar em outros povos a formação e a educação do seu movimento negro. Começando pela Guiné-Bissau, que nos anos 70-80 se tornou estrela da revolução a qual influenciou toda uma geração de militantes negros. Passando pela Nigéria, Tanzânia, Moçambique, Cuba, Madagascar e o polêmico Egito. Nota-se que desde o início de suas atividades o Olodum compreendia que até mesmo a luta anti-racial pra ter efeito teria que ser de certa forma globalizada. Os resultados foram impactantes.
            Os negros de Salvador, principalmente os da periferia, deixaram de lado a vergonha ou qualquer outro sentimento negativo imposto pela história e passaram gradativamente a sentirem determinado orgulho do que até então era chamado de raça, hoje chamamos etnia, em realidade os negros, não apenas em Salvador, mas em todo mundo, passaram a se sentir bonitos, criando até mesmo algo denominado “beleza negra”, que traz em si um conteúdo discriminatório, pois beleza é adjetivo, por si só é suficiente para expressar seu sentido. O Olodum veio existir para exaltar a negritude jovem da capital baiana.
            O Olodum estimulou a criação de outros grupos como: Grupo Afro Reggae do Rio de Janeiro; Grupo Unidos do Quilombo, de Sergipe; o Projeto Régua e Compasso e o Arte no Dique em São Paulo, e em Salvador: o Bagunçaco; o Pracatum; a Escola Mãe Hilda; o Instituto Araketu e o Projeto Axé, além de dezenas de bandas de percussão espalhadas pela periferia da capital baiana.
            Se o Olodum não tivesse investido, ainda na década de 80, nas novas gerações, talvez não tivesse tido tanto sucesso, ou talvez já tivesse deixado de existir. O fato é que muitas concepções, muitos conceitos que norteiam as visões de mundo das sociedades perderam o efeito com o advento da Nova Era, isto é, a própria concepção de movimento negro tem seu sentido deslocado e fragmentado ao mesmo tempo, bandeiras e slogans utilizados no final do século passado já não soam bem aos ouvidos dos públicos – alvos, isto não é apenas na questão étnica, é uma realidade aplicada em todos os setores da nossa sociedade. Portanto, este fenômeno de vazio e incompletude está sendo percebido por todos, principalmente porque novas questões tem se apresentado às Humanidades, desde o aquecimento global à insistência da produção de armas nucleares, sem considerar o sustento do nosso modo de produção, sustento esse forjado pelas próprias potências que tentam a todo custo manter as aparências e, como não há nenhuma proposta de fato, insistimos também nas lutas das minorias, quando toda a Vida na Terra corre o mesmo risco.
            Nesse contexto em que vivemos é necessário que realmente se invista em pesquisa e na formação de intelectuais com a finalidade de estimular a criação de novas idéias, a partir da compreensão de que se pode fazer ciência compreendendo a Vida como um todo, e que verdadeiramente o mundo caminha para uma realidade onde os valores espirituais serão superiores aos valores materiais, onde a o espírito de um jovem negro baiano terá o mesmo valor que o espírito de um jovem alemão de Manchester ou Berlim. Mas até lá as mudanças devem acontecer em nossos dias.
            Uma dessas mudanças já começou a acontecer, do contrário não estaria redigindo esta proposta de artigo, pois a UFBA – Universidade Federal da Bahia saiu na frente com a criação de cursos interdisciplinares, e em particular com a criação do curso de graduação: Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, com as mudanças na forma de ingresso na academia, e com as cotas para os negros, pardos e amarelos provenientes das escolas públicas, mas há muito para acontecer e para melhorar, contudo a esperança é que daqui a alguns anos o Brasil, ou melhor, os brasileiros alcancem um nível de espiritualidade maduro, independente da fé e da religião que pratique, o importante é equalizar o espírito.


REFERÊNCIAS


CARVALHO, Nuno Vieira de. Cultura urbana e globalização. In: www.bocc.ubi.pt acessado em 25 de maio de 2010.

FISCHER, Tânia. Olodum: a arte e o negócio. In: Revista de Administração de Empresas/EAESP/FGV. São Paulo. 1993. pp. 90-99.

MATOSO, Rui. A (re)animação cultural das cidades anestesiadas. in ruimatoso@gmail.com acessado em 25 de maio de 2010.

RODRIGUES, João Jorge Santos. Olodum: Estrada da paixão. Salvador. Edições Olodum, 1996.

SILVA, J.M. Apresentação de trabalhos acadêmicos. Normas e técnicas. Petrópolis. Vozes, 2009.


SITES VISITADOS:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Olodum, acessado em 25 de maio de 2010.