POR QUE FOUCAULT?


POR QUE FOUCAULT?
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE
O PODER E AS SOCIEDADES


MISAEL SANTOS*


Em política não se pode deixar de profetizar.
somente os que predizem que por muito tempo
 as coisas andaram como agora,
não se dão conta de que também profetizam.

Karl Kautsky



RESUMO: Esse trabalho acadêmico é antes de qualquer coisa um ensaio, não constitui e nem foi concebido como um artigo científico, contudo em um tempo próximo poderá vir a ser. O objeto de estudo será o pensamento de Michel Foucault, mais precisamente a sua compreensão do poder, a sua constituição, o seu exercício, os seus relacionamentos. Traz também um panorama das sociedades do mundo ocidental sob a perspectiva da biopolítica. Ao longo de suas linhas aparecem pensamentos de Giles Deleuze e Jean Baudrillard compondo um “diálogo” com o autor e com o leitor. Em suma, o presente ressalta a importância do filósofo francês para a humanidade e mais precisamente para a comunidade acadêmica.



PALAVRAS-CHAVES: Poder. Forças. Relações. Verdade. Sociedades.

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* Graduando da Universidade Federal da Bahia, discente do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, aluno do ex-professor Rodrigo no componente curricular HACA 76 – Estudo dos Poderes, turma 20.
1 INTRODUÇÃO


            Durante todo o período letivo, em diversos componentes curriculares fomos apresentados a um mestre da filosofia política – Michel Foucault. Sucintamente, em Estudo dos Poderes iniciamos com os gregos e a democracia; passamos pelos contratualistas – Hobbes, Locke e Rousseau; conhecemos o pensamento marxista, atravessamos Nietzsche, até chegarmos aos pensadores “mais” contemporâneos, entre os quais estão Adorno, Arendt, Aganbem e Foucault. Sem querer desmerecer os três primeiros, nem fazer qualquer tipo de comparação, ficou claro que Foucault tinha dado uma contribuição impar para a humanidade, percebido principalmente a partir da ênfase com que os professores ministravam a seu respeito.
            Sem ter a pretensão de produzir algo inédito, contudo sentindo a necessidade de compreender mais profundamente o pensador e o seu respectivo pensamento, tomo a liberdade e me permito escrever o presente acerca de conceitos desenvolvidos por Foucault, que de certo ponto de vista podem ser considerados conceitos revolucionários, que estão intrinsecamente ligados ao Estudo dos Poderes.
            É sabido que há diversos trabalhos publicados sobre Foucault, artigos científicos, resenhas, dissertações de mestrados, teses de doutorados e livros, que podem ser localizados em bibliotecas, livrarias e através da praticidade da internet. Porém, por conta da finitude do tempo acadêmico busquei nos seus contemporâneos Deleuze e Baudrillard respostas a minhas indagações, para que eu pudesse me posicionar a seu respeito de forma crítica a fim de fazer a reflexão que se segue.
            Dessa forma, serão proposto diálogos entre o próprio Foucault, Deleuze e Baudrillard com o único objetivo de construir um olhar próprio do graduando dado a importância de um dos maiores intelectuais dos últimos tempos, o que não impede de num futuro bem próximo esse conhecimento não venha ser expandido oficialmente ou de forma extracurricular.
            Será exposto o conceito foucaultiano de poder, destrinchando-os em forças, analisando-o inclusive sob o ponto de vista da verdade, para então enxergarmos a dinâmica das sociedades, tecendo considerações sobre os mesmos.



2 CONSIDERAÇÕES SOBRE O PODER


            O que Foucault entende como poder pode parecer a priori algo simplista, contudo deve-se destrinchar o se conceito para que possamos ter a compreensão necessária a respeito do poder. Em poucas palavras Foucault define o poder como um relacionamento de forças, isto é, forças invisíveis se engendram de tal maneira que passam a constituírem um relacionamento de poder.
            Ora, essa compreensão transcende as formas tradicionais de poder até então concebida, ultrapassa a associação do poder com o Estado, com a economia política, com a religião alcançando o crime organizado. Enfim, a cosmovisão de Foucault abrange todas as formas de poder conhecidas pela sociedade e incluem outras até então imperceptíveis, invisíveis, isto é, para Foucault o poder é micro físico.
Diante do exposto, o filósofo Giles Deleuze, seu contemporâneo faz a seguinte reflexão:
Compreendamos, em primeiro lugar, que o poder não é uma forma, por exemplo a forma-Estado; e que o relacionamento de poder não é entre duas formas, como o saber. (Deleuze, 1987 p.99)

            Em relação à força, nunca devemos enxergá-la no singular, pois a própria concepção de força pressupõe micro fisicamente que haja no mínimo uma segunda força, algo que nos remete as leis de Newton. Logo, ao identificar a existência de uma força automaticamente se detecta um relacionamento de poder. A explicação de Giles Deleuze é bastante clara em:
Em segundo lugar, que a força nunca existe no singular, que lhe cabe essencialmente estar em relação com outras forças, tanto assim que toda a força é já relacionamento, quer dizer poder: (Deleuze, 1987 p.99)
           
            A partir dessas definições torna-se contraditório definir o que é o poder, o que nos cabe indagar é de que modo o engendramento, o relacionamento de forças vem a exercer o poder? Seria banal qualquer tipo de comparação com a famosa lei do mais forte, a compreensão em Foucault é mais complexa, rebuscada por tons subjetivos que nos deixam surpresos e atônitos.
            As forças relacionadas entre si passam a exercer o poder através da afetação, ou seja, uma determinada força afeta as demais a ponto de vir a exercer o poder sobre as mesmas. Para Giles Deleuze a resposta a essa questão é a seguinte:
Um exercício de poder surge como um afecto, posto que a força se define ela própria pelo seu poder de afectar outras forças (com as quais ela está relação), e de ser afectada por outras forças. (Deleuze, 1987 p.100)

            Quanto aos relacionamentos de poder, é importante salientar que são relações diferenciais determinam singularidades e se dá de modo a homogeneizar as singularidades ligando-as entre si, alinhado-as, estratificando-as. Em relação aos elementos de estratificação, Giles Deleuze assim os define e exemplifica:
Os fatores integrantes, agentes de estratificação constituem instituições: o Estado, mas também a Família, a Religião, a Produção, o Mercado, a própria Arte, a Moral... (Deleuze, 1987 p. 105)

Compreendido o exercício e os relacionamentos do poder em Foucault, nos deparamos com algo que poderíamos até chamar de problema, contudo esse termo pode diminuir a grandeza do seu significado – a verdade. Logo o que vem a ser a “verdade” para Foucault? Como ela é identificada? Mesmo que respondêssemos a esses questionamentos não teria o valor das palavras do mestre Michel Foucault, que diz:

- Entendendo-se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer “o conjunto de coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar”, mas o “conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro, efeitos específicos de poder”. (Foucault, 2010 p.11)

            Crendo que o próprio “conjunto das regras” proposto pelas forças que exercem, ou que constituem o exercício do poder, é quem autoriza, quem valida algo como verdade, o termo “verossímil” seria mais adequado ao contexto, uma vez que, as próprias forças que exercem poder sobre as demais são quem determina o valor de verdade a algo, ainda que toda a sociedade o compreenda como falso, ou melhor, é o poder que torna algo verossímil para as massas, a exemplo da própria democracia. Foucault (2010) continua a sua explanação em: A “verdade” está circularmente ligada a sistemas de poder, que a produzem e apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem. “Regime” da verdade.
            Sem dispor de tempo suficiente para aprofundar nesse imenso assunto, recorro a uma opinião crítica de um patrício de Foucault sobre o próprio Foucault, Jean Baudrillard afirma que:
Talvez Foucault somente nos fale tão belamente do poder porque o poder está morto, e não apenas indetectável por disseminação, mas dissolvido por reversão, anulação ou hiper-realizado na simulação [...] (Baudrillard, 1984 pp. 15-16)

            Realmente, todo o brilho do intelectual francês pode ter ligação com o fato de estar situado tão perfeitamente no contexto histórico que a compreensão advinda a partir desse fato foi capaz modificar todo o pensamento ocidental, equiparando-o a Nietzsche e a Marx.


3 CONSIDERAÇÕES SOBRE AS SOCIEDADES


            Numa perspectiva do mundo ocidental, Foucault situa e classifica as sociedades historicamente sob o ponto de vista do exercício do poder. Para tanto, o intelectual francês insere os conceitos de biopolítica e biopoder em filosofia. De forma breve e etimologicamente o biopoder vem a ser o poder sobre a vida, na sua essência, é o poder sobre os corpos, sobre as almas. E, a biopolítica seria a estratégia do biopoder, isto é, como gerenciar a vida, como controla a vida. Com bases nesses conceitos Foucault faz a situa as sociedades da seguinte maneira:
            Até o século XVIII, o mundo ocidental experimentou as sociedades de soberania, caracterizado por um biopoder soberano que fazia morrer e deixava viver, isto é, decidia sobre a morte mais do que geria a vida, e açambarcava mais do que organizava a produção.
            Entre o século XVIII e início do século XX, transitamos para as sociedades disciplinares, que entre suas características podemos citar: procede à organização dos grandes meios de confinamento, entre eles se encontravam a família, a escola, a caserna, a fábrica, o hospital e até mesmo a prisão. É importante observar que Foucault sabia da brevidade desse modelo.
            Quando os meios de confinamento entraram em crise e foram iniciadas reformas “necessárias” para se adequarem a nova forma de sociedade que já sinalizava o seu surgimento. – as sociedades de controle. Quanto ao processo de transição, Giles Deleuze declara o seguinte em relação às reformas: Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação das novas forças que se anunciam. (Deleuze, 1996 p.220).
            Em relação às sociedades de controle é importante mencionar que apesar de terem sido identificadas por Foucault, este não foi um conceito desenvolvido por ele, ficando a cargo de outros filósofos como Giles Deleuze e Félix Guatarri, logo não iremos aprofundar em seu conteúdo, observando que ao lançar um olhar para a biopolítica nessas sociedades supracitadas, identifica-se o relacionamento das forças que vem constituir o poder em termos pragmáticos.


4 CONCLUSÃO


            Por que Foucault? Seria porque em meio a um contexto social em que Marx era a doutrina máxima, quase dogma nas ciências humanas, surge alguém que traz a cena conceitos que só eram entendidos segundo uma perspectiva materialista.
            Por que Foucault? Terá sido pelo fato de ter produzido após a Segunda Grande Guerra, o que de certo modo abriu os olhos do intelecto para campos sedentos de serem explorados, para searas gritantes por colheitas.
            Por que Foucault? Segundo Jean Baudrillard é porque: Ninguém jamais abordou seriamente esta outra face não política do poder, a da sua reversão simbólica. (Baudrillard, 1984 p. 88).
            O fato é que independente de críticas e elogios, o pensamento político de Foucault contribui para que a contemporaneidade viesse ter a roupagem que hoje é percebida, outros conceitos como dispositivos, máquinas, panóptico, desejo e estudos da subjetividade são atribuídos também a Foucault.
             Reconhecendo a importância deste filósofo, gostaria de sugerir a criação de um grupo de pesquisa, ou núcleo de estudos foucaultiano, oficializado pelo IHAC, que despertaria em muitos discentes o interesse pela compreensão dessa magnífica filosofia política.
REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. Esquecer Foucault. Rio de Janeiro. Rocco, 1984.
DELEUZE, Giles. Foucault. Lisboa: Vega, 1987.
DELEUZE, Giles. Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro. Editora 34, 1996.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. In: www.sabotagem.cjb.net, 2010.