A NATURALIDADE HUMANA
O espírito vive de ficções como o corpo se nutre de alimentos.
Marques de Maricá
João Ubaldo Ribeiro, baiano, natural da Ilha de Itaparica, graduado em direito, pós-graduado em administração pública é um dos escritores brasileiros mais conhecidos pelo grande público. Autor de romances consagrados como Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro e O Sorriso do Lagarto, entre outros. Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1994 possuindo diversos prêmios nacionais e internacionais.
Em 2008, escreve um livro de crônicas chamado O Rei da Noite, explorando o contraste entre a tradição e a novidade, o passado e o presente. Uma dessas crônicas chama-se Aventuras Naturais. Nesta crônica, o escritor baiano utiliza um fato ocorrido em um restaurante macrobiótico de Salvador. Dialogando com os personagens naturalistas, explora seu senso de humor e este nos apresentam um novo conceito do que vem a ser “natural.” Logo, João Ubaldo Ribeiro apresenta, em sua crônica, um grupo de pessoas que se julgam “naturais” ou naturalistas, baseadas em seus modos alimentares.
Utilizando um vocabulário exclusivo dos naturalistas, o narrador questiona quase tudo, pois as palavras proferidas pelos naturais soam estranhamente, e o leitor passa a ter conhecimento dessas expressões. A exemplo de “macrobiótico”; “água descansada”; chá de beldroega; chá de tília.
Dessa forma, João Ubaldo Ribeiro faz uso de seu talento humorístico e inteligente conduzindo a risos e gargalhadas todos os seus leitores, até mesmo os “naturais”. Descritos como “macilentos”, de olhos “protuberantes”, rostos “escaveirados”, aparentando uma velhice precoce. Descrição que, certamente, contribui para que aquele ambiente específico viesse a ter uma “atmosfera pálida e astênica”.
Na parte final da crônica, a narrativa muda de ambiente, o escritor está em sua casa observando sua filha, muito nova, nova demais, e voltada para o “natural”. Flagra a menina “Chica” comendo grilos e se assusta, no entanto considera aquela ação “natural”. João Ubaldo Ribeiro demonstra que “natural”, quanto a alimentação, é um sentido muito relativo. Dependendo de circunstâncias pode ser apenas um rótulo, já em outras pode ser considerada uma doença.
Ora, ao realizar a leitura do texto Aventuras Naturais, nós leitores podemos ser classificados como receptores de muitas informações, que para muitos são inéditas, o que motiva o leitor a se interessar pela compreensão dessa crônica. Logo, podemos afirmar que o texto é caracterizado pela informatividade, que Segundo Costa Val (2006) é um dos fatores pragmáticos da textualidade e se dá quando a recepção do texto pelo leitor é mais trabalhosa, contudo mais interessante.
Naturalmente, não possuo as qualidades de João Ubaldo Ribeiro, ícone da literatura nacional, nem pretendo alcançá-lo. Como aprendiz de ciências humanas não poderia concluir este texto sem refletir sobre este tema. Concordo com a ironia do escritor no que diz respeito aos naturalistas, mas há outros grupos em nossa sociedade, com suas linguagens, suas identidades, seus ambientes.
REFERÊNCIAS
RIBEIRO, João Ubaldo. Aventuras Naturais, In: O rei da noite. R. Janeiro: Objetiva, 2008.
VAL, Maria da Graça Costa. Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
E:\joaoubaldo_bio.asp.htm, acessado em 25-09-2010.