ESPAÇO EVANGÉLICO



O ESPAÇO RELIGIOSO
O CASO DAS IGREJAS EVANGÉLICAS DE SALVADOR


Misael Santos*


                        A religião é o ópio do povo.
Karl Marx


RESUMO: esta proposta de artigo traz uma abordagem cuidadosa sobre um assunto imenso e polêmico – a religião, e em particular sobre os protestantes, também chamados evangélicos, para tanto explica brevemente as origens dessa versão do cristianismo, identificando um conceito de espaço religioso, volta o olhar para os evangélicos que por vários motivos não são objetos comuns de estudos acadêmicos, dessa forma compreende que Salvador é uma cidade com alto grau de religiosidade, propõe uma releitura do povo soteropolitano a partir do reconhecimento espacial ocupado pelos evangélicos das diversas denominações e igrejas “autônomas” espalhadas por todo território da capital baiana, o que justifica a inserção dos mesmos em estudos e pesquisas científicas.


PALAVRAS-CHAVES: Religiosidade. Cristianismo. Evangélicos. Espaço. Salvador.

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*Graduando da Universidade Federal da Bahia, Cursando Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos, aluno do Profº Drº Renato da Silveira na disciplina HACA 03 - Estudo das Humanidades, turma 08.



INTRODUÇÃO


            Lançando um olhar para o campo das Humanidades se enxerga diversas searas, algumas de colheitas fáceis, outras, porém aparentam certas dificuldades para se obter determinados conhecimentos. A religião é uma dessas searas, polêmica, melindrosa, individual e coletiva ao mesmo tempo em que exerce tanta influência nas sociedades que em alguns casos, como os judeus, a religião deu origem a nação e, por conseguinte ao Estado.
            Dessa maneira, compreendendo que o espaço religioso é apenas uma “tarefa” dessa seara riquíssima, será feito um breve estudo sobre uma versão do cristianismo: os evangélicos, também chamados de protestantes, sob o ponto de vista espacial da cidade do Salvador.
            Há diversos trabalhos acadêmicos sobre o tema religião, porem são poucos os que exploram os evangélicos, no entanto podemos encontrar muitos artigos nos exemplares da Revista de Estudos Religiosos, mas localizando os estudos, TCCs, dissertações de mestrado e teses de doutorado nesta instituição, percebem-se uma lacuna lastimável.
            O motivo da escolha desse tema vem justamente dessa percepção, de um modo generalizado a cidade do Salvador se destaca nacionalmente pela fé do seu povo indistintamente de religião, seita ou credo e, no entanto, a participação evangélica é constantemente ignorada nesse contexto.
            Através de uma base teórica, expandindo e aplicando os conceitos aos evangélicos, somando-se a experiência instintiva de pesquisa realizada durante boa parte da existência do autor, será descrita numa visão panorâmica da cidade do Salvador dos evangélicos, esperando que todas as barreiras culturais carregadas de preconceitos e discriminação possam ser desfeitas a partir da iniciativa da comunidade acadêmica e assim obter uma melhor compreensão à luz da academia, abrindo horizontes até então obscuros. Crendo que a médio-longo prazo será possível construir uma trajetória nesta universidade que se auto-proclama “democrática”, e ao alcançar um nível razoável de conhecimento e discernimento capaz de produzir em uma oportunidade única um trabalho que traga respaldo para a instituição, para os evangélicos e de certa forma para o autor. 


1 DOS JUDEUS AOS EVANGÉLICOS


            Desde a antiguidade, as religiões estão presentes em todas as sociedades, no entanto uma se destacou na história humana – o judaísmo, entre os diversos fatores que diferencia de outros credos estão: o fato de ser monoteísta; ter origem familiar – a família de Abraão; ter caráter patriarcal; ser disseminada através de tradições orais; ser baseadas em revelações do divino e usar de sacrifícios animais em seus rituais. Com o passar do tempo, a família do patriarca se multiplicou e por questões econômicas todos os seus descendentes migraram para os limites territoriais da civilização “ocidental” mais evoluída da época – o Egito. Com certeza, no período em que os “filhos de Abraão” viveram no Egito perceberam a necessidade de se cultuar as divindades em um espaço, em local conhecido como templo, que se tratava de uma construção “faraônica” no sentido intrínseco da palavra.
            Após cerca de 400 anos essa sociedade monoteísta migrou do Egito sem destino, as causas da sua saída são atribuídas a questões sobrenaturais que não convém tratar neste momento. Durante essa peregrinação “os Hebreus”, como eram chamados pelos egípcios por questões geográficas, tinham a necessidade de cultuar seu deus, contudo por não estabelecer residências fixas esses cultos eram realizados em tendas que eles chamavam de “tabernáculo”. Há indícios de que durante esse período o monoteísmo praticado não fora uma constante naquele “ensaio de sociedade”.
            Quando a liderança política daquele povo decidiu abandonar a vida nômade, por mais paradoxal que pareça, ao invés de construir suas cidades na imensidão territorial que existiam eles resolveram invadir e tomar posse das cidades que existiam em uma área do Oriente Médio conhecida por Canaã. Invadiram diversas cidades arrasando seus habitantes, os quais se transformavam em seus escravos além, de se apropriar de toda a sua riqueza, entre essas cidades se encontravam Jericó, Ai, Jerusalém, Hebron, Jarmute, Laquis, Eglon, Gezer, Debir, Geder, Horma, Arade, Libna, Adulão, Maquedá, Betel, Tapua, Hefer, Afeca, Lasarom, Madom, Azor, Sinrom-Merom, Acsafe, Taanaque, Megido, Quedes, Jocneão do Carmelo, Nafate-Dor, Gilgal e Tirza, totalizando trinta e uma cidades-estados¹. Dessa forma os hebreus, também chamados de israelitas, foram assentados naquele espaço do globo do terrestre.
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¹A fonte dessas informações é a Bíblia Sagrada, no livro de Josué.

            Após esse período esse povo religioso e monoteísta, naturalmente já se tornara uma nação e com um espaço em seu poder veio constituir um Estado, que apesar da figura de um Rei, representando o poder político, e um Sumo-sacerdote representando o poder religioso. Os cultos ainda ocorriam em tabernáculo até o terceiro rei de Israel – Salomão construir um majestoso Templo que duraram sete anos, do qual só resta um muro conhecido em todo mundo por “muro das lamentações”.
            Mais não é sobre os judeus que o tema central desse estudo trata essa abordagem serve apenas para situar o complexo ponto de vista aqui estabelecido ressaltando a arbitrariedade da parte dos israelitas em relação a outros povos, bem como a necessidade de extrair um espaço dentro de seu território e santificá-lo, consagrá-lo, ou melhor, a preocupação de existir um local reservado e exclusivo para a realização de seus cultos.
            Após muitas gerações um descendente de Abraão veio a existir e fazer a diferença de toda a história até os nossos dias – Jesus, através de uma releitura aplicada a realidade de sua época, quando a Judéia estava subjugada ao Império Romano, e que por sua coragem e ousadia fora condenado com a pena de morte, provocando assim entre os seus contemporâneos a origem de uma nova religião derivada do judaísmo, diga-se de passagem.
            Ora o cenário histórico era diferente, Roma obrigava os povos a cultuar os Césares, e todos os seus deuses mitológicos e aquele grupo religioso recém nascido por sua vez tinha a mesma necessidade de se reunir dentro daqueles territórios em um espaço voltado para os seus cultos. No início essas reuniões aconteciam nas próprias residências dos cristãos, com as constantes retaliações de Roma, essas reuniões passaram a ser realizadas fora dos limites das cidades, em grutas e cavernas, não obstante a precariedade dos locais, aquelas pessoas eram movidas pela necessidade de encontrarem um espaço sagrado dentro do espaço territorial dedicado ao mesmo deus dos judeus, só que por outro ângulo.
            Durante toda a Idade Média o cristianismo construiu diversos templos, agora chamados de igrejas, em todo mundo ocidental. Muitas dessas construções “faraônicas” existem até hoje, inclusive na própria cidade de Roma existe um território independente de toda esfera política e econômica daquele país – o Vaticano, construções magníficas como a Igreja de São Pedro, há também diversas construções voltadas para a formação clerical, os conventos para as moças e os mosteiros para os rapazes.
            No final do século XVI, em um desses mosteiros situado no território que hoje constitui o Estado da Alemanha, um monge chamado Martinho Lutero propôs uma releitura do cristianismo, condenando algumas doutrinas criticando alguns ritos que vieram causar a divisão do cristianismo em catolicismo e protestantismo, que em muitos pontos eram diferentes, embora a existência de um eixo comum, onde o deus cultuado era o mesmo dos judeus, Jesus era o personagem humano principal, e persistia a necessidade de existir um espaço, também chamado de igreja, aonde viesse a ser realizados seus cultos, ensinado suas doutrinas, praticados seus ritos e liturgias.
            A primeira igreja protestante que se tem notícia leva o nome do monge – Igreja Luterana, na Alemanha, porém apareceram muitas outras igrejas nesses moldes, quer por questões políticas ou econômicas, não nos cabe julgar nesse trabalho, como a Igreja Anglicana na Inglaterra. As construções dessas igrejas também obedeciam à mesma lei humana, grandes construções, bem localizadas no território de cada país, a fim de poder representar o local onde a divindade estaria constantemente presente.
            Com a invasão portuguesa no território que constitui o Brasil, vieram os cristãos católicos e impuseram a sua religião como única e verdadeira aos povos que aqui habitavam. Mesmo com o advento do protestantismo não se tem conhecimento de fato de que ocorressem tais práticas religiosas neste país até o início da república, em 1889. Pois a igreja protestante mais antiga no Brasil coincidentemente se encontra em Salvador.
            No Brasil os protestantes passaram a ser chamados de evangélicos e algum tempo depois passaram a se fragmentar em dois grandes grupos, os tradicionais e os pentecostais, as divergências forma basicamente os ritos, já que as doutrinas permaneciam as mesmas, porém não foi algo que se possa caracterizar como uma releitura do cristianismo.


2 A TEORIA DO ESPAÇO EVANGÉLICO


            Com a finalidade de sustentar este trabalho em uma fundamentação teórica é preciso partir de conceitos generalizados que alcancem todas as religiões no mundo e, aplicando esses conhecimentos ao objeto desse estudo, traga o mínimo de respaldo científico, uma vez que a comunidade científica demonstra certo desdém em relação aos evangélicos.
            A regra básica, ou a lei maior das religiões para o espaço segundo Mircea Elíade é que “para o homem religioso, o espaço não é homogêneo” (Elíade, 1996, p.25), para os evangélicos não é diferente, herdado do catolicismo que por sua vez herdou do judaísmo, portanto na visão dos cristãos evangélicos existe uma diferença latente entre o espaço mundano, profano, ou material e o espaço religioso, sagrado ou ainda entre o espaço espiritual.
                        Assim quando os invasores portugueses tomaram posse desse imenso território realizaram uma missa consagrando todo o espaço erigindo uma cruz , como se representasse uma nova fase, ou se ascendesse do mundo pagão para o mundo cristão na verdade “A ereção da cruz equivalia à consagração da região e, portanto, de certo modo, a um “novo nascimento”... A terra recentemente descoberta era renovada, recriada pela cruz.” (Eliade, 1996, p.35)
            Em realidade o espaço material passa por um processo de consagração a fim de ser santificado e adquirir o status de local sagrado, são os templos, igrejas, catedrais e por extensão a própria casa.
            Quando uma igreja é construída em um terreno, ou quando é instalada em um imóvel, os evangélicos se reúnem para consagrar o local, exorcizar, limpar, purificar, ou seja, tornar aquele local o mais próximo possível das dimensões celestiais. Desde a arquitetura, a pintura, a decoração e a estrutura tudo é planejado para quando o indivíduo entrar for elevado ao sagrado estabelecendo um limite entre os mundos material e o espiritual, citando Mircea Elíade em:

“A porta que se abre para o interior da igreja significa, de fato, uma solução de continuidade. O limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois modos de ser, profano e religioso. O limiar é ao mesmo tempo o limite, a baliza, a fronteira que distinguem e opõem dois mundos – e o lugar e o lugar paradoxal onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o mundo sagrado.”²

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²Eliade, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 1996, p. 40.

            No Brasil, os evangélicos adquirem muitos imóveis como supermercados, galpões, cinemas, e terrenos, para construir seus templos, logo se fazem necessário consagrar esses locais que representa a “repetição da cosmogonia”, um assunto pertinente que não será discutido nesse trabalho, o ponto central é compreender que todo espaço pode ser consagrado.
                        Dessa forma, citaremos Mircea Eliade para uma reflexão científica:

“[...] diríamos que a experiência do sagrado se manifesta no espaço, o real se revela, o Mundo vem à existência. Mas a irrupção do sagrado não somente projeta um ponto fixo no meio da fluidez amorfa do espaço profano, um “Centro” no “Caos”; produz também uma rotura de nível, quer dizer, abre a comunicação entre os níveis cósmicos (entre a Terra e o Céu) e possibilita a passagem, de ordem ontológica, de um modo de ser a outro “³

            O espaço evangélico nos últimos tempos tem demonstrado certas particularidades que transcende ao espaço físico, ao espaço territorial. No século passado foi criado um novo espaço, que não é físico, apesar de necessitar de uma infra-estrutura para que venha a existir, onde aparece no cenário como tipicamente profano, porém com o passar dos tempos, os evangélicos perderam o preconceito e tomaram posse do mesmo – o espaço midiático, ou virtual. Emissoras de rádio e de televisão se transformaram em alvo para os evangélicos, no início eram apenas alguns horários, atualmente se tornaram proprietários de algumas emissoras nacionais de televisão como a Rede Record, Rede Família e Rede Mundial, e de rádios são inúmeras, em Salvador temos a rede Aleluia FM, Rádio Bahia AM, Rádio Cruzeiro AM e tantas outras. A internet também é outro espaço midiático que vem sido consagrado em todo o mundo, são sites de igrejas, de pastores, de ministérios acessados abertamente por todos os internautas.
            Em realidade esse espaço midiático é um deslocamento do espaço físico compreendido apenas pelo indivíduo pós-moderno, e se tratando de espaço evangélico o deslocamento se dá quando o local dos cultos e reuniões chega até a residência do telespectador ou do rádiouvinte, como se praticasse o ditado popular “já que Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”.
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² Eliade, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 1996 p.59.

            Os evangélicos também têm consagrado outros espaços sociais como, por exemplo, o espaço da moda; o espaço da música; da literatura; da educação; do lazer e da política entre tantos outros que se fosse preciso esmiuçar, seria necessário tempo, disposição e boa vontade, para também ocupar e consagrar o espaço acadêmico.


3 A RELIGIOSIDADE EVANGÉLICA EM SALVADOR


            A cidade do Salvador, capital do estado da Bahia é conhecida mundialmente por sua religiosidade e pela fé do seu povo, e isso não está limitado às interpretações do cristianismo. A prova disto é a forte inclinação para o candomblé, que têm em suas origens estreitas ligações com a própria historia da cidade, onde muitas vezes causa uma ligeira confusão para os leigos e estrangeiros. Mas o próprio cristianismo-católico é marca registrada dessa cidade, além do orgulho de se encontrar nesse território “365 igrejas católicas, uma para cada dia do ano-calendário”. Há também motivo de se orgulhar pelas suas festas religiosas, onde a principal é conhecida popularmente por “Lavagem do Bonfim”, a qual atrai milhares de pessoas em uma procissão quilométrica.
            Apesar de a predominância religiosa oscilar entre o catolicismo e o candomblé, a cidade do Salvador também abriga outros grupos religiosos de diversas origens, as mais diferentes expressões budistas como também as inúmeras interpretações do cristianismo-protestante, ou cristianismo-evangélico, é justamente sobre os evangélicos que se propõem algumas observações de cunho espacial.
            Como já citado foi em Salvador que se instalou o primeiro templo evangélico que se tem registro no Brasil – a Primeira Igreja Batista do Brasil, que se situava na Ladeira da Praça, Centro Histórico e que hoje estrategicamente está localizada em plena Avenida Antonio Carlos Magalhães e que por sinal é uma bela construção pós-moderna. Há outras construções evangélicas em Salvador que merecem tecer algumas observações, não apenas pela sua localização e arquitetura, como também pela relação sócio-cultural com o povo soteropolitano.
            A principal delas é chamada de Catedral da Fé, localizada bem em frente ao Shopping Iguatemi, também na Avenida Antonio Carlos Magalhães, e pertence à denominação Igreja Universal do Reino de Deus, realmente esta é uma construção faraônica que impressiona todos que por ali transitam diariamente, em seu interior o indivíduo parece estar no próprio Céu. Outra igreja evangélica impressionante é a Igreja Batista Sião, localizada no Campo Grande, ao lado do Teatro Castro Alves, luxuosa, suntuosa, potentosa é impossível ao visitante se sentir humano, no sentido de sentir a matéria em seu interior. A Igreja Cristã do Brasil, também possui um templo desse quilate localizado próximo a Rótula do Abacaxi, na Avenida Barros Reis. Se fossemos contar a quantidade de igrejas evangélicas de grande porte em Salvador, por certo o número superaria a quantidade de igrejas católicas, porém a intenção aqui não demonstrar superioridade quantitativa e sim construir um pensamento onde se reconheça a existência social dessas instituições e a importância dos seus efeitos diretos na cultura popular.
            Podem ser encontrados templos de diversas denominações como Testemunhas de Jeová; Igreja Presbiteriana; Igreja Adventista; Assembléia de Deus; Igreja Deus é Amor; Igreja Apostólica Renascer em Cristo; Igreja Evangélica Restauração e Vida entre tantas. Se internamente fosse dada atenção às milhares de igrejas evangélicas espalhadas na periferia e no subúrbio de Salvador, facilitaria esta compreensão. Estas igrejas ocupam imóveis de pequenas e médias dimensões situadas em locais que muitas vezes o acesso é uma barreira, em ladeiras, favelas, invasões. Sua estrutura varia de paredes de tijolos, barro, madeira. Os nomes são os mais originais como: Igreja Pentecostal do Poder Celestial; Igreja da Prece Poderosa; Igreja Evangélica de Jerusalém, etc., que no conjunto modifica a paisagem cultural dessas localidades.
            Como em pleno século XXI a nossa sociedade se comporta preconceituosamente em relação aos evangélicos? Como que esse povo passa despercebido? Por que razões são ignorados? Muitas outras questões podem ser levantadas nesse sentido, o problema é saber se os próprios evangélicos se permitem a responder, será que eles fazem questão de participar da sociedade nesse sentido? Será que eles têm uma consciência de religiosidade capaz de fortalecer seus elos ao invés de fragmentá-los? Ou ainda qual a ligação das origens da população de Salvador com tamanha tendência a pratica da fé? São assuntos que estão interligados e compõe um emaranhado de aspectos que muitas o pesquisador se deparam com as barreiras impostas pelo próprio segmento religioso, que geralmente são fechados e particulares.
            Doutrinas, ritos, liturgias, templos, membros a verdade é que o universo da religiosidade evangélica não é fácil de ser enxergado, nem mesmo pelos mais preparados intelectuais contemporâneos, muito embora poucos tenham tentado e investido deixando uma lacuna, herdada do século passado e que apresentam sinais de perpetuação. Ainda há outras abordagens como a saudação universal evangélica: “a paz do Senhor”, as orações, os jejuns, as campanhas, os exorcismos, os próprios conflitos doutrinários que geralmente ocasiona novas divisões, produzindo novos espaços que são consagrados, numa febre espiritual que parece interminável que ao somar-se com a sede do povo, ou a vontade compulsiva e viciosa de se iludir formam multidões de “crentes nesta terra mestiça.


4 CONSIDERAÇÕES FINAIS


            Qual o olhar adequado que possa ser lançado aos evangélicos de modo geral e aos de Salvador especificamente? Um olhar preenchido de preconceitos com certeza está fora de cogitação, um olhar de observador seria supérfluo demais, o olhar mais adequado com toda certeza seria um olhar de dentro, de alguém que tenha vivenciado em toda sua vida esse tipo de religiosidade. Mas qual o objetivo desse olhar, por que dá importância para esse tema, haja vista, ser “uma gota d’água no oceano”.
            É sabido por todos que vivemos uma Nova Era, onde muitas instituições do período anterior, inclusive as igrejas evangélicas e todo o cristianismo, se tornaram falidas, obsoletas, e no caso das igrejas se transformaram em mega empresas de almas, negociando a salvação e os direitos do nome de Jesus.
            Claro que as humanidades pode não trilhar por esse caminho, mas compreender o momento em que o mundo passa é crucial para o futuro das próximas gerações. A condição de vida, no sentido orgânico, no planeta vem extrapolando os limites até então suportáveis. Justamente por isso pode ser investidos hoje em estudos sobre a religião onde o eixo seria o destino do cristianismo, pois urge o momento de ser feita uma revisão e aparecer novas propostas para essa realidade. Acreditando que o caminho para se alcançar tais objetivos venha ser através da construção científica de tais pensamentos, manifesto neste texto muitas vezes a própria vontade humana de fazer parte de algo historicamente notável, mesmo sabendo da resistência de gerações anteriores, sigo buscando na academia o fomento das minhas observações pessoais.



REFERÊNCIAS


ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo. Editora Martins Fontes. 1996.

SANTOS, Lindon de Araújo. As outras faces do sagrado. In: Revista dos Estudos de Religião. Nº 1 2005. pp. 1-14.

GUIMARÃES, Robson Franco. Os últimos dias: os pentecostais e o imaginário do fim dos tempos. In: Revista de Estudos de Religião. Nº 1 2005. pp. 31 – 53.