MESTIÇAGEM RELIGIOSA

RELIGIÃO E MESTIÇAGEM
O CASO DOS NOVOS RITOS
NAS IGREJAS EVANGÉLICAS
NA PERIFERIA DE SALVADOR.



A mistura é um fato que nada tem de circunstancial,
de contingente, de acidental.

François Laplatine & Alexis Nouss.

Deus é Espírito, e importa que os que o adoram
o adorem em espírito e em verdade.

Jesus Cristo.


RESUMO: Este artigo analisa um assunto polêmico e pouco explorado pela comunidade científica, partindo do conceito da formação do povo brasileiro, caracteriza nossos ancestrais, atravessa a história pelo ângulo da mestiçagem, enxergando os reflexos deste fenômeno na atualidade e invade o universo do cristianismo com o objetivo de constatar que entre os evangélicos, principalmente das periferias dos centros urbanos, a existência de uma mistura espontânea, criando assim uma nova versão do cristianismo, com elementos de outras religiões presentes em seus cultos e reuniões.

PALAVRAS CHAVES: mestiçagem, religião, verdade, evangélicos e ritos.


1 INTRODUÇÃO


O artigo científico que proponho nestas linhas trata da mestiçagem religiosa nas liturgias e nos ritos evangélicos atuais. Antes de tudo é uma constatação, e de antemão aviso aos leitores que o mesmo não tem caráter crítico, discriminatório, preconceituoso ou até mesmo reivindicatório, mesmo porque “as religiões assim como os valores, as tradições, os costumes e os comportamentos são elementos essências das culturas de um povo” (Utsch, 2003 p. 12) e digo mais “a religião é a atividade cultural mais antiga e presente em todas as culturas” (Chauí, 2005 p.252) Por se tratar de um assunto um tanto melindroso é preciso considerar o ponto de vista que em realidade a mestiçagem entre os evangélicos ocorre através de uma negação do dualismo: sagrado – profano, uma vez que a “verdade” na Bahia é peculiar ao sentido espiritual do nosso povo. Como o tema é pouco estudado por parte da academia¹, me permito a escrever baseado em observações realizadas durante a minha existência.

As explicações antropológicas, históricas e sociais não me convêm escrever neste momento, porém citarei exemplos e fatos que tenho testemunhado pessoalmente de um fenômeno, que antes eu chamava de “inconsciente”. Hoje à luz da academia chamo de fenômeno social espontâneo de mestiçagem e tenho a certeza que o termo espontâneo tem raízes históricas na cidade do Salvador, e digo mais, a mistura é atualmente tão evidente em tantos setores da nossa sociedade que mais parece uma “epidemia cultural” que tem atingido os evangélicos por osmose, e estes sem perceber acabam misturando suas doutrinas elementos com o de outros credos e religiões, onde o sentido cristão tradicional perde a sua importância para a adaptação regional da crença, logo em seus cultos e reuniões, que podem ser abertos ao público ou particular, isto é, entre eles, verifica-se a presença daquilo que irei denominar de “ritos mestiços”.


2 VERDADE: A MISTURA
O conceito filosófico da verdade que aceito é uma mistura de vários conceitos ver, perceber, falar e crer o que nos remete ao princípio étnico que compôs a sociedade brasileira, não apenas em relação à cor da pele, pois seria um tanto mesquinho, mais analisando traços e características culturais do índio, do português (inicialmente) e do - negro. Do índio herdamos a imprevidência, do português a luxuria, somando com amalandragem do negro, para enfim sair o brasileiro.

Passado mais de 500 anos, inserido no contexto mundial vieram outros povos como holandeses, franceses, alemães, italianos, espanhóis, poloneses, árabes e até japoneses, certo que em um contexto histórico diferenciado, porém cada povo trouxe consigo a sua identidade cultural e mesmo se preservando no início, com o tempo se misturaram transformando assim o quadro do brasileiro atual.

Na Bahia, precisamente em Salvador vemos duas porções dessa mistura que são as mais evidentes – o português e o negro. Percebemos que a maioria é negra e que por motivos históricos uma parcela significativa de negros não alcançaram a classe média; não tiveram acesso a uma universidade. Dizemos que atualmente essas duas partes participam intensamente do fenômeno da mestiçagem. Cremos que o soteropolitano, de uma maneira generalizada, possui uma habilidade especializada em se misturar, pois além de ser um povo muito alegre, receptivo, inteligente, religioso, místico possuem em suas características essenciais a fé e o otimismo.

3 A EPIDEMIA CULTURAL


Ora, a sociedade brasileira é hoje fruto dessa imensa mistura com reflexos em todas as áreas, aquilo que começou por uma necessidade sexual do português se transformou em uma “bola de neve”, uma verdadeira avalanche impulsionada pela força da gravidade histórico-social comparada até mesmo a uma epidemia mestiça. Sabemos que essa mistura possui reflexos em todos os âmbitos sociais, na política, na economia, nas ciências, nas artes e até na religião. Alguns exemplos atuais da mistura que contagiou todo o território nacional: o futebol, criado pelos ingleses, e comprovadamente somos os melhores do mundo; a pecuária trazida pelos portugueses se destaca hoje como uma das principais atividades econômicas do país; a exploração do petróleo, hoje que a Petrobras, a maior empresa brasileira e uma das gigantes do setor é orgulho de nossa gente; a culinária é a testemunha mais prática dessa mistura com pratos que misturam o paladar europeu com o africano, acrescentado de tempero tipicamente tropical (a ordem dos fatores não altera o produto); bem como nossas plantas nativas que outros povos patenteiam; e mais evidente ainda são os sobrenomes de nosso povo que é a prova mais clara da mestiçagem, etimologicamente claro.

Na religião não foi diferente, compreende-se que a religião do português passou por um processo de reciclagem através de Martim Lutero³ com a reforma protestante (mestiça) no final do século XVI e que essa mesma reforma nos alcançou onde ao passar algum tempo passamos a identificar esse alcance pelo termo: evangélicos; considerando também que os negros adaptaram suas origens religiosas, resistindo às imposições do português, criando então uma nova versão religiosa e mestiça: o candomblé.

4 RITOS MESTIÇOS


Recentemente criamos a nossa versão mestiça do cristianismo, que faz muito sucesso entre as classes populares, e que se alastrou por todo território nacional – os evangélicos. Claro que existem igrejas e templos tradicionais, como as igrejas batistas, presbiterianas, anglicanas, testemunhas de Jeová dentre outras que foram trazidas por estrangeiros e são mais antigas, além de preservam até os dias de hoje as suas liturgias e ritos originais. Mais o povo brasileiro não se rende e com o tempo rompeu com as tradições e uma vez que consideramos a cultura como uma questão de cunho espiritual, enxergando que a adaptação é uma necessidade coletiva nós brasileiros criamos a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, a Igreja Mundial da Paz, etc. Além dessas igrejas que conhecemos através da mídia, existem outras milhares situadas nas periferias dos centros urbanos, inclusive na capital baiana, que tive a oportunidade de observar pessoalmente alguns cultos tendo testemunhado a inserção de elementos de outras religiões, principalmente do candomblé. São igrejas pequenas, entre 15 a 100 membros, espalhadas por favelas, bairros periféricos e subúrbios ferroviários.

Esses evangélicos são verdadeiros “mestiços religiosos”, pois em seus cultos presenciamos algumas expressões místicas como “entrar em mistério” que é algo semelhante a uma dança dos orixás onde se podem escutar as saudações em ioruba; “revelação” é algo parecido com a chegada de um ou mais exus que trazem mensagens de outra dimensão para as pessoas, nota-se que nunca essas mensagens causam vergonha ou constrangimento para quem as recebe e “ir à maca”, essa é a mais mestiça de todas, pois já experimentei, é semelhante a um passe após um ritual parecido com o “sacudimento de corpo” realizado pelos caboclos, a pessoa desfalece, alguns membros auxiliam e a deitam no chão, então todos começam a orar circulando a pessoa, algo verdadeiramente tribal, depois de um tempo indeterminado (nunca vi passar de cerca de dez minutos) a pessoa se levanta com o corpo mais leve. Essas manifestações ocorrem acompanhadas de música com ritmos regionais, nacionais e estrangeiros, utilizando instrumentos de todo tipo, tais como: violão, guitarra, bateria, teclado, acordeom, timbale, atabaques, pandeiros, etc. São “ritos mestiços” nos sentidos artísticos e litúrgicos e têm causado uma verdadeira revolução, atraindo um número cada vez maior de fiéis que se identificam harmonicamente com essa nova maneira de viver o cristianismo - original e verdadeira.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


Não quero com isso discutir a eficiência dos métodos, pelo contrário, quero expor fatos e elucidar racionalmente sob o ponto de vista cultural que essa mistura é perfeitamente aceitável. A maioria dos membros dessas igrejas evangélicas, são afros descendentes, possui baixa renda familiar, com grau de escolaridade inferior ao ensino fundamental (boa parte deles não sabem ler), e curiosamente são ex-adeptos do candomblé, e tem origens no interior da Bahia, mais precisamente nas roças.

É importante salientar que se este assunto for esmiuçado, digo pesquisado, cientificamente falando, será verificada a relação desse fenômeno em seus detalhes mais importantes, embora estes fatos tenham sido vivenciados em nada fere ou ofende a comunidade cristã, já que para ser verdadeiro o cristianismo deve instantaneamente assimilar elementos da cultura local. Se considerarmos que o candomblé nasceu da mestiçagem entre os católicos e os negros e não foi por acaso que resistiu a tanto tempo e tem se estabelecido como traço cultural da Bahia e de Salvador reconhecido em todo mundo, nada mais justo e natural que outros credos se misturem a ele adaptando os seus métodos e não copiando os modelos originais trazidos por estrangeiros.

Devido à quantidade de pessoas que se declaram evangélicas no Brasil atualmente, e enxergando que se trata de um vasto campo a ser cultivado pelas ciências, faz-se necessário que a universidade se desprenda de qualquer preconceito e passe a enxergar os evangélicos como objeto de estudo científico, empreendendo cursos e pesquisas, não apenas cultural, mais político, econômico, psicológico e outros ramos acadêmicos para melhor compreender a realidade.


REFERÊNCIAS


Chauí, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo. Ática, 2005.

Laplatine, Fraçois & Nouss, Alexis. A Mestiçagem. Lisboa. Instituo Piaget, 2002

Silva, J.M. Apresentação de trabalhos acadêmicos. Normas e técnicas. Petrópolis vozes, 2009.

Utsch, José Assis Simões. O Brasil e os brasileiros: Resenhas. Curitiba. Livraria do Chain, 2003.

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