SERÁ POSSÍVEL?
INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NA UNIVERSIDADE!
A religião é o ópio do povo
Karl Marx
A história da humanidade traz em seu bojo o encalce da intolerância religiosa. Não vamos muito longe, no início da Era cristã é sabido que tanto judeus como pagãos perseguiram os primeiros cristãos levando-os muitas vezes à morte, depois vieram os romanos que faziam dos cristãos coadjuvantes de espetáculos de selvageria. Porém, os cristãos nem sempre foram as vítimas, uma vez que, entre os séculos X e XIII, estes perseguiram os mulçumanos sob o pretexto de resgatar a Terra Santa. E como não mencionar os tempos da Inquisição, onde os hereges, bruxas e similares foram condenados à morrer queimados. Há ainda o episódio da sangrenta noite de São Bartolomeu, onde os cristãos hostilizaram os protestantes a ponto de serem massacradas dezenas de milhares de huguenotes. O século passado foi testemunha de uma feroz perseguição aos judeus, considerados por Hitler os responsáveis por “todos os males”. Em 11 de setembro de 2001 o mundo assistiu ao vivo mais uma manifestação de intolerância religiosa, da parte dos mulçumanos que levou a morte milhares de pessoas nos EUA, por fim o último grande caso, ocorrido em 2008 quando extremistas hindus massacraram aldeias cristãs, destruindo igrejas.
Deslocando um pouco a história, e centrando no Brasil dos últimos tempos reconhecemos a intolerância oficial para com as religiões de matrizes africanas, quando o Estado proibia constitucionalmente a prática de tais cultos, muito embora proibido, muitos terreiros continuaram a existir com a conivência das autoridades, até que em 1988, com a promulgação da “atual” constituição o nosso país se tornou laico.
Oficialmente no Brasil não existe religião oficial permitindo aos brasileiros a liberdade de professar a fé que escolher, ou mesmo, negar qualquer crença, sem o ônus de se vir a ser alvo de discriminação, preconceito, violência, constrangimento e outras formas de intolerância.
Por outro lado, o Brasil atual guarda traços adquiridos por herança social dos tempos coloniais, quando por questões econômicas o Negro foi introduzido como elemento de formação do nosso povo, o que culturalmente influencia até hoje na classificação social do Brasil. Muitos movimento existem para modificar esse quadro, muitos desses movimentos são articulados por intelectuais, e na Bahia , precisamente em Salvador, toda essa cultura tem uma força impar, incontestável e coberta de razões. Porém, por trás do rótulo do Movimento Negro percebe-se uma prática sutil de intolerância religiosa, principalmente nas universidades.
Sou Negro, concordo que temos o dever de corrigir a história não para nós mesmos desfrutarmos, mas para que as próximas gerações possam sentir-se livres de todo tipo de preconceito e discriminação racial que somos expostos hoje. Sou universitário, graduando na área de ciências humanas, onde o ser humano é o objeto de estudo, e numa perspectiva científica as etnias no Brasil devem ser consideradas apenas como elementos constituinte de nossa formação enquanto povo. Sou evangélico, e observo que na universidade os intelectuais não medem esforços para corrigir as heranças sociais através da propagação de religiões de matriz africana.
Ora, de que modo então eles praticam intolerância?
Ao ministrar aulas de diversos assuntos, muitos professores tratam alunos evangélicos com uma “educada” diferença, desdenhando-os. Talvez eles considerem os evangélicos anti-sociais, anti-científicos, ou então fracos ou fortes demais. O que causa certo constrangimento em muitos alunos evangélicos.
Para o evangélico, o ser humano só enxerga o exterior, a aparência. Sabe-se que Deus que enxerga o caráter do sujeito, e este não faz acepção de pessoas. Logo, creio que o discurso do Movimento Negro, comete um erro grave quando não consegue desvincular a religião de seus líderes do movimento político-social. Causando desconforto não só aos evangélicos, como também aos praticantes dos demais credos.
Acredito que as religiões de matrizes africanas, em seu conjunto, é a principal arma do Movimento Negro atualmente, mas penso que a intolerância religiosa é praticada ao transmitir os conhecimentos de determinada religião em sala de aula.
O que dizer então quando os adeptos de uma fé oficializam grupos de pesquisa, financiados por órgãos federais, e não aceitam membros que cultuam outros deuses?
O ideal seria não se falar em religião dentro da universidade, mas, já que a compulsão é maior que a razão, vamos enxergar os religiosos apenas como objeto de estudo, e não como donos da verdade ou inimigos.