O REFLEXO DO INTELECTUAL


O
REFLEXO 
DO INTELETCUAL
NA PENUMBRA SOCIAL

MISAEL SANTOS*


 E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam
Jesus Cristo


SINOPSE: Fahrenheit 451 é uma produção cinematográfica de 1966, baseada no livro de autoria de Ray Bradbury cujo título é homônimo ao filme, dirigido por François Truffault e estrelado por Oscar Werner, no papel de Montag, e Julie Christie em duas personagens Linda e Montag e Clarisse. A história se passa em uma sociedade futurística onde os livros e toda espécie de leitura foram banidos, para controlar a população os detentores do poder usam os bombeiros em papel invertido, isto é, ao invés de controlarem incêndios, eles próprios tocam fogo nas residências que possuem livros escondidos, para isso é necessário que a temperatura chegue ao grau 451 da escala Fahrenheit. No entanto Montag, bombeiro altamente eficiente, é motivado por Clarisse a ler os livros que ele mesmo incendeia o que acarreta em uma mudança de comportamento tal que assusta Linda, sua esposa, que a delata. Logo Montag refugia-se a margem da sociedade em lugar onde os homens eram conhecidos por Homens-livro, pois estes decoravam um livro espontaneamente e eram identificados pelo título do respectivo livro.

PALAVRAS-CHAVES: Livros. Intelectual. Poder. Comportamento. Iniciativa.

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* Graduando da Universidade Federal da Bahia, discente do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, aluno do professor Ivan Maia na disciplina HACA 34 – Estudo da Contemporaneidade II, turma 16.
            Em todas as sociedades as pessoas independentes das classes sociais se agrupam em categorias. Muitas, inclusive, podem se encontrar distribuídas em diversas categorias. Os esportistas, os lutadores, os artistas, os criadores de animais, os religiosos, os marginais e principalmente os intelectuais. A compreensão da vida em uma sociedade pressupõe que exista essa diversidade. Imagine uma sociedade onde só existam criadores de galos-de-briga.
            Cada categoria possui um elo entre os seus integrantes que transcende a sua identidade. As características são visíveis em sua linguagem, em seu modo de vestir, em seu comportamento de modo geral, e os tais são identificados pelos outros por tais características.
            No filme Fahrenheit 451 é focalizado o grupo dos intelectuais, onde os poderosos deflagram uma verdadeira caçada aqueles que buscam a luz do conhecimento principalmente nos livros. Sobre este filme é importante tecer alguns comentários.

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            O motivo pelo qual querem extinguir os intelectuais daquela sociedade é principalmente o seu comportamento. Eles afirmam que a leitura torna as pessoas infelizes e improdutivas. As pessoas que lêem são perigosas a ponto de serem levadas presas e seus livros, juntamente com suas residências são incendiados. Bem verdade que as pessoas voltadas para o conhecimento se diferenciam das outras em tudo, se destacam, independente da sua classe social o que acaba causando nos outros uma espécie de constrangimento, de sentimento de inferioridade.
            Ora, se somos animais racionais, se pensar é a nossa maior dádiva divina nada mais natural que haver uma hierarquia subjetiva entre os membros de determinada sociedade. Essa hierarquia não é baseada em força, em concentração de renda, em posse de terras, ou ainda em capacidade bélica. Pelo contrário os homens esclarecidos são, naturalmente e instintivamente, superiores aos demais independente das prerrogativas e valores que damos a bens, a propriedade e a poder aquisitivo. No filme não há distinção entre as áreas do conhecimento, principalmente entre as ciências exatas e humanas, contudo penso que se referem às ciências humanas.


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            A conseqüência foi, sob determinado ponto de vista, desastrosa. Pra início de conversa as pessoas perderam sua liberdade, se tornaram alienadas. Sob a luz fosca daqueles que detinham o poder viviam em uma verdadeira penumbra social. Estavam presas a reações químicas produzidas por diversos remédios. A leitura fora abolida da sociedade a tal ponto que as escolas não ensinavam a ler e sim a contar.
            Outro elemento dessa alienação que passou a ter controle sobre a vida das pessoas é a televisão, com programas ao vivo onde os telespectadores acreditam participar de dentro de suas casas. A televisão para conter a população e manter as coisas em ordem transmite falsas notícias, de modo que não havia verdade em nada.
            Muito embora as conseqüências da falta de leitura fossem gritantes, havia uma que era tão explícita quanto à própria vida – a carência de afetos. Sim, as pessoas demonstravam inconscientemente desconhecer o carinho, o amor em sua forma natural, principalmente por não haver romances. Não havia estímulo para as relações afetivas.

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            Em vista dessa situação de terror maquiado, os intelectuais não se renderam, e nem poderiam, pois a prática da leitura está em suas aptidões animais. Separados geograficamente e com espontaneidade, mas unidos no mesmo espírito, passaram a decorar os livros e queimá-los em seguida, para então recitá-los para os outros.
Essa iniciativa foi a arma secreta daqueles tidos por muitos leigos como loucos. O mais impressionante é o processo de identidade dos mesmos com os respectivos livros decorados. A interação foi tamanha que estes passaram se chamarem pelo título do livro seguido pelo nome do autor, por exemplo, fulano de tal passou a ser chamado de A Dialética da Natureza de Frederick Engels, ou então A Política de Aristóteles. De repente essa sociedade paralela se autodenominada sociedade dos Homens-Livro.
Moral da história: a esperança para a nossa sociedade não está na tecnologia, nem nas formas de poder. A nossa esperança está no conhecimento científico e, diga-se de passagem, nas ciências humanas!