SILAS MALAFAIA
&
A LINGUAGEM EVANGÉLICA
NA TELEVISÃO BRASILEIRA
Misael Santos*
É inviolável a liberdade de consciência e de crença
sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos
e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto
e as suas liturgias.
Artigo VI da Constituição brasileira de 1988
RESUMO
Esta proposta de artigo traz para a comunidade acadêmica um tema que diz respeito à no mínimo vinte por cento da população brasileira – os evangélicos. Para tanto será construído um pensamento que parte da essência da religião, atravessa o universo cristão, compreendendo a história evangélica no Brasil até alcançar o objeto desse estudo: o Pastor Silas Malafaia e seu programa de televisão Vitória em Cristo, pontuando fatores que conduziram ao absoluto sucesso não apenas entre os evangélicos como também a toda população brasileira que assistem a seus programas com freqüência.
PALAVRAS-CHAVES: Religião. Evangélicos. Mídia. Televisão. Linguagem. Brasil.
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Graduando da Universidade Federal da Bahia, discente do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Prof. Milton Santos, aluno da Profª Drª Marilda de Santana na disciplina HACA 36 - Estudo das Culturas, turma 01.
INTRODUÇÃO
Compreendendo que este texto faz parte de uma série de cinco artigos, ou melhor, de propostas de artigos que são objetos da avaliação acadêmica, o que não implica dizer que ao se insistir em um mesmo tema se torne um especialista no assunto. Apesar de ter discorrido sobre vários temas como: mestiçagem religiosa; identidade hippie; narcotráfico internacional e o Olodum, nestas linhas o tema religião retorna, enfocando novamente a “cultura evangélica”, mais precisamente a sua relação com a principal e mais popular mídia do país – a televisão.
O objeto desse estudo é especificamente o programa de televisão Vitória em Cristo, organizado e produzido pelo Pastor Silas Malafaia, o qual é apresentado de segunda a sábado na rede Bandeirantes de televisão, na TV aberta e em muitos canais fechados, em um horário incomum, sempre às madrugadas.
Isento de qualquer preconceito ou discriminação este texto busca um ponto de vista da linguagem onde o mais importante é a interação com o meio, assim considerando que cada programa cria sua própria linguagem e é voltado para determinado público-alvo, o programa Vitória em Cristo também possui sua própria linguagem, podendo afirmar que o Pastor Silas Malafaia é o criador dessa linguagem cultural, midiática e evangélica.
É sabido por todos, porém não admitido, que a Academia guarda certos preconceitos quando o assunto são os evangélicos, ou algo relativo a essa camada religiosa, talvez por questões oficiais, que nos remetem à idade média onde o Vaticano exercia sua influência de forma arbitrária, mas isso é outra história. Há poucos estudos e pesquisas sobre essa “cultura”, alguns lidos e pesquisados serviram de base teórica para o presente texto, destacando um artigo publicado na Revista de Estudos da Religião, número 01 de 2005, com o título Religião e Mercado: A mídia empresarial-religiosa, somando-se a audiência do próprio autor ao referido programa, mais os conhecimentos discutidos em sala de aula e apontados por outros colegas, foi possível escrever algo inédito e livre de qualquer alienação, uma vez que não se dispõe de tempo exclusivo para se dedicar a pesquisa teórica e a pesquisa de campo, ou de opnião, trataremos do polêmico e melindroso assunto.
A priori considera-se a religião como elemento essencial da cultura de um povo, voltando o olhar para o Brasil existe a consciência de que os invasores portugueses, com sua visão eurocêntrica do mundo, imprimiram nesse território a sua religião, ignorando toda a religiosidade do povo original. A religião trazida de Portugal era a tradução deturpada e corrompida daquela proposta que deu origem a mesma, isto é, o catolicismo medieval era em sua essência uma derivada do cristianismo original, vivido e pregado pelos apóstolos no inicio da Era Cristã.
Com o tempo o catolicismo implantado aqui no Brasil e praticado por colonos e mestiços étnicos não ficou imune a Reforma Religiosa, e assim passou a existir a versão protestante do cristianismo, com novas doutrinas, novos ritos, novas estruturas, contudo nada garantia que se aproximava da idéia original do próprio Jesus Cristo.
No final do século XIX o Brasil conheceu esse trabalho através dos protestantes americanos que através de missionários fundaram em Salvador a Primeira Igreja Batista do Brasil, na época situava-se na Ladeira da Praça, Centro Histórico, hoje está localizada na Avenida Antonio Carlos Magalhães. O fato é que por questões que não fazem parte desse estudo, os Batistas no Brasil se dividiram em tradicionais e pentecostais dando origem a uma nova igreja, a Assembléia de Deus, daí em diante a fragmentação tem ocorrido até os dias atuais. São inúmeras as igrejas protestantes, mais conhecidas por igrejas evangélicas, que seria impossível listar neste trabalho.
Contudo os evangélicos têm sua identidade cultural, sua essência particular que diferencia de outras formas de praticar o cristianismo. Tradicionais, pentecostais, renovados, apostólicos, etc., a classificação pode ter tantos nomes quanto for possível, no final a essência e a mesma.
A Bíblia Sagrada, por exemplo, é concebida como única regra de fé e prática por todas as igrejas evangélicas. Diferente da Bíblia católica, com três livros a menos, diferentes da Bíblia das Testemunhas de Jeová, seita cristã que não admite a divindade de Jesus, diferente da Bíblia dos Mórmons e tantos outros. Assim todo o povo evangélico utiliza a Bíblia com todas as interpretações possíveis no campo do imaginário. Por este motivo a Bíblia é explorada comercialmente, atualmente fabrica-se todo tipo de Bíblia, para crianças, jovens, mulheres, homens, Bíblias de estudo, de pesquisa, de enfeite etc.
Outra identidade cultural dos evangélicos presentes em sua essência é o modo de vestir, ou melhor, “o estilo têxtil evangélico”. Em todos os cultos e reuniões nas mais diversas igrejas todos se produzem ao máximo, é um verdadeiro desfile de luxo, onde os homens se vestem de terno e gravata, as mulheres com os vestidos de alta costura, o que fica subentendido a importância de se reunir, ou ainda, o valor dado pelos membros à própria salvação.
Há também um rito comum a todos os evangélicos que acontece todos os meses, tão importante e fundamental para a manutenção da fé – a celebração da Ceia do Senhor, curiosamente é quando se celebra a morte de Jesus Cristo, algo que parece paradoxo, porém pode ser explicado por qualquer cristão evangélico que afirmam que o próprio Jesus deu essa ordem.
Há também o rito de passagem, chamado de batismo nas águas, método criado por João Batista e que Jesus fez questão de passar. São muitas as explicações desse rito, mas todas giram em torno do sentido de “morrer para o mundo material e ressuscitar no plano espiritual”
Ora a essência evangélica vem da prática da caridade, igualdade, comunidade, buscar a paciência, o amor, a paz. Despreza o ódio, a raiva, a inveja. Tudo aquilo que for negativo deve-se abandonar e o que for positivo pode-se buscar em si mesmo que irá encontrar.
A propagação da doutrina também está na essência desse povo; a comunicação com Deus, também chamada de comunhão através da oração; o discernimento, a humildade, em suma a essência evangélica tenta imitar o caráter de Cristo, mesmo que hoje as Humanidades estejam deslocadas no tempo e no espaço daquilo que teria sido a melhor proposta de Vida para todos que habitam a terra. O que se percebe atualmente é que existe muito interesse, muitos lucros, muitos hipócritas permeiam o “povo evangélico” sujando o nome de Jesus e desacreditando a muitos brasileiros que se interessam por essa determinada cultura.
O espaço e o tempo na essência evangélica terão um enfoque especial nesse estudo, pois esses subtemas são fundamentais para que a compreensão do programa Vitória em Cristo sob a luz da academia possa surtir efeito sócio-cultural, dessa forma abordaremos o espaço evangélico-sagrado e logo em seguida o tempo, sob o mesmo ponto de vista.
1.1 O espaço evangélico
A regra básica, ou a lei maior das religiões para o espaço segundo Mircea Elíade é que “para o homem religioso, o espaço não é homogêneo” (Elíade, 1996, p.25), para os evangélicos não é diferente, herdado do catolicismo que por sua vez herdou do judaísmo, portanto na visão dos cristãos evangélicos existe uma diferença latente entre o espaço mundano, profano, ou material e o espaço religioso, sagrado ou ainda entre o espaço espiritual.
Assim quando os invasores portugueses tomaram posse desse imenso território realizaram uma missa consagrando todo o espaço erigindo uma cruz , como se representasse uma nova fase, ou se ascendesse do mundo pagão para o mundo cristão na verdade “A ereção da cruz equivalia à consagração da região e, portanto, de certo modo, a um “novo nascimento”... A terra recentemente descoberta era renovada, recriada pela cruz.” (Eliade, 1996, p.35)
Em realidade o espaço material passa por um processo de consagração a fim de ser santificado e adquirir o status de local sagrado, são os templos, igrejas, catedrais e por extensão a própria casa.
Quando uma igreja é construída em um terreno, ou quando instalada em um imóvel, os evangélicos se reúnem para consagrar o local, exorcizar, limpar, purificar, ou seja, tornar aquele local o mais próximo possível das dimensões celestiais. Desde a arquitetura, a pintura, a decoração e a estrutura tudo é planejado para quando o indivíduo entrar for elevado ao sagrado estabelecendo um limite entre os mundos material e o espiritual, citando Mircea Elíade em:
“A porta que se abre para o interior da igreja significa, de fato, uma solução de continuidade. O limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois modos de ser, profano e religioso. O limiar é ao mesmo tempo o limite, a baliza, a fronteira que distinguem e opõem dois mundos – e o lugar e o lugar paradoxal onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o mundo sagrado.”¹
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¹Eliade, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 1996, p. 40.
No Brasil, os evangélicos adquirem muitos imóveis como supermercados, galpões, cinemas, e terrenos, para construir seus templos, logo se fazem necessário consagrar esses locais que representa a “repetição da cosmogonia”, um assunto pertinente que não será discutido nesse trabalho, o ponto central é compreender que todo espaço pode ser consagrado.
Dessa forma, citaremos Mircea Eliade para uma reflexão científica:
“[...] diríamos que a experiência do sagrado se manifesta no espaço, o real se revela, o Mundo vem à existência. Mas a irrupção do sagrado não somente projeta um ponto fixo no meio da fluidez amorfa do espaço profano, um “Centro” no “Caos”; produz também uma rotura de nível, quer dizer, abre a comunicação entre os níveis cósmicos (entre a Terra e o Céu) e possibilita a passagem, de ordem ontológica, de um modo de ser a outro “²
No século passado foi criado um novo espaço, que não é físico, apesar de necessitar de uma infra-estrutura para que venha a existir, onde aparece no cenário como tipicamente profano, porém com o passar dos tempos, os evangélicos perderam o preconceito e tomaram posse do mesmo – o espaço midiático, ou virtual. Emissoras de rádio e de televisão se transformaram em alvo para os evangélicos, no início eram apenas alguns horários, atualmente se tornaram proprietários de algumas emissoras nacionais de televisão como a Rede Record, Rede Família e Rede Mundial, e de rádios são inúmeras, em Salvador temos a rede Aleluia FM, Rádio Bahia AM, Rádio Cruzeiro AM e tantas outras. A internet também é outro espaço midiático que vem sido consagrado em todo o mundo, são sites de igrejas, de pastores, de ministérios acessados abertamente por todos os internautas.
Em realidade esse espaço midiático é um deslocamento do espaço físico compreendido apenas pelo indivíduo pós-moderno, e se tratando de espaço evangélico o deslocamento se dá quando o local dos cultos e reuniões chega até a residência do telespectador ou do rádiouvinte, como se praticasse o ditado popular “já que Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”.
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² Eliade, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 1996 p.59.
1.2 O tempo evangélico
A noção de tempo é imprescindível para discernir e entender o ponto de vista aqui abordado, primeiro estima-se que o Universo tenha cerca de dezessete bilhões de anos, o sistema solar cerca de nove bilhões de anos e o planeta Terra cerca de 4,5 bilhões de anos, com números de ordem de grandeza desse escalão é impossível que o ser humano não se sinta limitado, passageiro, supérfluo. Já para o indivíduo religioso é impossível não associar esse tempo a grandeza do criador. Com isso assim como o espaço, o tempo também admite a dualidade sagrado-profano, material-espiritual. O tempo profano vem a ser “a duração temporal na qual se inscrevem os atos privados de significado religioso” (Eliade, 1996 p.63), ou melhor, o tempo convencional, admitido por toda a sociedade, inclusive pelos religiosos; já “o tempo sagrado é por sua própria natureza reversível, no sentido em que é, propriamente falando, um tempo mítico primordial tornado presente” seria um extrato do tempo profano onde se reestruturaria toda a mentalidade do ser religioso.
A questão do tempo é tão essencial para as religiões que muitas utilizam de calendário próprio, como os judeus, os mulçumanos, na verdade a civilização ocidental faz uso de um calendário tipicamente cristão, já que estamos em 2010 depois de Cristo. Os evangélicos não são diferentes no uso do calendário, e assim como os judeus que consagram um dia na semana – o sábado, os evangélicos consagram o domingo.
Por outro ângulo os evangélicos crêem que a vida é eterna, isto é, sem início meio e fim, como fica a noção de tempo? Não seria ir ao encontro desse princípio? Não estariam limitando a vida? O ponto chave é que o ser humano ao se converter ao cristianismo-evangélico não abandona a vida em sociedade, não deixa a civilização e, por conseguinte são obrigados a conciliar os dois tempos, com a citação de Mircea Eliade se esclarece esse ponto:
“O homem religioso vive assim em duas espécies de Tempo, das quais a mais importante, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto paradoxal de um Tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos.”³
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³Ibid. p.65
Há ainda pontos em que se podem criar discussões, como o tempo das festas religiosas, a páscoa, as quarentenas, as cruzadas evangélicas que ocorre paralelo com o calendário da sociedade onde o choque das datas não impede os fiéis de comemorar, pelo contrário nesses eventos a freqüência é mais intensa que nas programações regulares. Lógico que os horários dos cultos e reuniões são estabelecidos de modo que possam congregar um número máximo dos fiéis, em algumas igrejas há diversas reuniões no mesmo dia com o mesmo tema.
Ora com o advento e apropriação do espaço midiático pelos evangélicos, naturalmente ou automaticamente é modificada a noção do tempo, e passa a ser inventado um “tempo midiático”. Nesse tempo não há limites convencionais, e podem ser explorado vinte e quatro horas por dia, então começou pelas emissoras de rádios em alguns horários, ou muito cedo ou muito tarde, isto é, os primeiros programas evangélicos nas rádios tinham seus horários entre cinco e seis horas da manhã ou a partir das vinte e três horas. Na televisão começou algum tempo depois em um horário muito cedo.
Algum tempo depois os evangélicos foram se apropriando das emissoras de rádios o que permitiu a programação vinte e quatro horas por dia. Assim as pessoas sintonizavam em suas residências, em seus trabalhos, nos seus veículos. O mesmo se deu com a apropriação das emissoras de televisão algum tempo depois.
O fato é que o “tempo midiático” existe e sua compreensão transcende as religiões. Por esse mesmo motivo é preciso haver uma consagração desse tempo, uma santificação tanto da parte de quem produz os programas quanto da parte dos telespectadores ou rádiouvintes se for o caso, é algo instantâneo que ultrapassa o conceito de dedicação, como se de fato interagisse em outro espaço.
O objetivo desse capítulo não é relatar a história da televisão brasileira, nem de criticar suas emissoras, embora a reflexão feita aqui possa ter caráter pessoal, é antes de tudo a tentativa de pontuar sobre a cultura brasileira de assistir TV, algo que está intrínseco ao brasileiro e que de certa forma atinge todas as classes sociais, etnias, faixas etárias, ou outras classificações pertinentes.
A televisão brasileira é atualmente elemento de nossa cultura, tão presente na vida do brasileiro quanto a sua alimentação. O aparelho pode ser adquirido pelos mais variados preços, há todo tipo de modelo, inclusive nas residências das classes mais altas existem vários aparelhos, em escritórios, lojas, salões de beleza, consultórios e até nas zonas rurais mais afastadas. Dessa maneira a sua influência se encontra em um nível tão alto que nenhum outro tipo de mídia superou, nem mesmo a mais nova – a internet.
Atualmente no Brasil há diversas emissoras de televisão, em canais abertos e fechados, emissoras nacionais e estaduais ou locais, entre as nacionais de canais abertos estão o SBT – Sistema Brasileiro de Televisão, a CNT – Companhia Nacional de Televisão, a Rede Globo, a Rede Record, a Rede Bandeirantes, a Rede Cultura, a Rede Gospel, etc., entre as locais se encontra a Rede Bahia e a TV Salvador. Cada emissora com sua infra-estrutura é preparada para buscar no público brasileiro a sua audiência. Talvez pelo fato de que o Brasil é um país continental, abrangendo multifaces de uma mesma cultura contribua para tamanha diversificação nas programações da TV brasileira.
Há programas infantis com exibição de desenhos animados; programas adolescentes com enfoque na sexualidade; programas jovens com discussões e apresentações de artistas e programas adultos. Há programas rurais e urbanos, programas jornalísticos, programas musicais. Seria impossível nesse texto descreve os programas de televisão exibidos no Brasil.
O importante é destacar a noção de que esses programas são elaborados para determinado público e para a eficiência dos mesmos é preciso pesquisas e estudos até que se tenha um grau de conhecimento para a criação de uma linguagem especial onde verdadeiramente interagisse com todos os telespectadores desse imenso país.
Essa linguagem não é única, em um mesmo tipo de programa exibido pelas diversas emissoras existem diferenças por exemplo, o Jornal Nacional da Rede Globo possui uma linguagem diferente do Jornal da Globo da mesma emissora e dos demais telejornais brasileiros. Não que uma linguagem venha ser melhor que outra, mas que cada programa desenvolve sua própria linguagem, o melhor exemplo disso é a linguagem utilizada por empresário do SBT, mais conhecido como Silvio Santos, tido por muitos críticos como o maior apresentador da TV brasileira, sempre irônico, irreverente, debochado comandou por muitos anos a audiência brasileira nos domingos.
Outro ponto importante que não passa despercebido quando o assunto é a televisão brasileira são as telenovelas, de uma experiência esse tipo de programa se transformou num ícone mundial da TV no Brasil. Há até quem possa comparar a produção brasileira de telenovelas com as produções de cinema hollywoodianos, sem exagero é claro, porém se o ponto de vista for o fato de que esse produto brasileiro é exportado para os mais diferentes países do globo essa comparação é lúcida.
Com a evolução da tecnologia a televisão reina absoluta entre as mídias brasileiras, pois quando se transmite ao vivo acontece algo hipnotizante, principalmente os jogos de futebol, inclusive a Copa do Mundo, o Brasil para no tempo e de olhos bem abertos e corações ligados assistem os jogos como se o espaço terrestre fosse resumido ao ambiente doméstico ou um bar, um clube, etc., em realidade a televisão está na essência do indivíduo pós-moderno.
Dentre os programas da televisão brasileira estão aqueles de caráter religiosos, produzidos pelos evangélicos com vários objetivos e diversas linguagens os quais por fazer parte do tema central desse trabalho acadêmico será tratado em um capítulo especial.
2.1 Os evangélicos na TV
Os primeiros programas evangélicos na TV brasileira foram ao ar ainda na década de 60, eram programas locais, de curta duração onde os Adventistas foram os pioneiros em São Paulo e no Rio de Janeiro. Já na metade da mesma década a TV Tupi exibiu o programa da Igreja Nova Vida do missionário Robert McAlister. A partir daí os programas evangélicos exibidos no Brasil passaram a ser importados dos Estados Unidos com uma linguagem voltada para a realidade americana. Essa iniciativa foi chamada de Igreja Eletrônica. Programas como Alguém Ama Você de Rex Humbard, Clube 700 de Pat Robertson, e os cultos do Pastor Jimmy Swaggart eram transmitidos para todo território nacional. Até a década de 80 esses programas ainda foram exibidos quando a produção nacional se tornou suficiente para atender a demanda evangélica. Em 1989, quando várias denominações detinham concessões de rádios, a IURD – Igreja Universal do Reino de Deus adquiriu a Rede Record de Televisão se tornando a primeira denominação evangélica a ser proprietária de uma televisão com cobertura nacional, fato que teve repercussão em todo o país causando polêmica e desconfiança sobre a integridade dos líderes dessa igreja, principalmente do seu fundador- o Bispo Edir Macedo.
Com esse instrumento, os evangélicos poderiam disseminar as suas doutrinas, pregar o evangelho, propagar a luz da salvação ou em termos científicos multiplicar o número de adeptos, e este eram o principal objetivo no início desse trabalho. Existem poucas emissoras nacionais totalmente evangélicas. Esse campo está assim dividido:
"A IURD tem a terceira maior rede de TV do país, a Rede Record, composta por cerca de 30 emissoras de televisão; a Igreja Assembléia de Deus opera uma rede com duas emissoras e dezenas de repetidoras no norte do país, a Rede Boas Novas; a Igreja Renascer em Cristo opera, em São Paulo, a Rede Gospel de Comunicação. Até mesmo o ex-nanico, R. R. Soares, cunhado de Edir Macedo, iniciador da Igreja Internacional da Graça de Deus, que tem uma exposição de 60 horas semanais na TV aberta, ensaia colocar no ar um canal pago, operado pela NET, a partir de São Paulo [e tem na Rede Bandeirantes para todo o Brasil em horário nobre o programa Show da Fé todas as noites]. A Universal, por sua vez, além de ser proprietária da Rede Record, usada mais para a disputa no campo das emissoras comerciais, usa também tempo no horário nobre da TV Gazeta, em todas as noites, assim como em outros canais operados pela NET."4
Há inúmeros programas evangélicos, das mais diversas igrejas espalhadas por este país, no entanto se há interesses comerciais, ou melhor, econômicos não nos cabe pontuar, o eixo dessa discussão é que ao alcançar um número de pessoas que não caberia em nenhum templo ou igreja na face da terra, os evangélicos estariam deslocando o espaço sagrado para um lugar que só é possível conceber que exista de fato em um plano espiritual e dessa forma estariam cumprindo uma de suas doutrinas com toda eficácia. Se para manter um programa no ar é preciso despender cifras astronômicas, infere-se o valor exorbitante de adquirir uma emissora nacional, justificado apenas quando o objetivo é “a salvação do Brasil”.
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4 Santana, Luther King de Andrade. Religião e mercado: a mídia empresarial-religiosa. In: Revista de Estudo da Religião, nº1. 2005 p.58
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Dentre os programas mais recentes e que tiveram sucesso ao permanecer na mídia está o Programa Vitória em Cristo do Pastor Silas Malafaia, suas particularidades e alguns pontos que conduziram este programa ao gosto do brasileiro iremos abordar logo em seguida.
3 O Pastor Silas Malafaia
O povo evangélico brasileiro ao longo do tempo vem formando líderes que tem surpreendido toda a nossa sociedade, com suas experiências de vida, suas formações profissionais e suas qualidades. Alguns inovadores, outros tradicionais, ou ainda, ortodoxos que no contexto desempenham seu papel muito bem. Algumas conquistas evangélicas são atribuídas à capacidade de seus líderes.
Como exemplo está o Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus; a Bispa Sônia Hernandez da Igreja Apostólica Renascer em Cristo; o Missionário R. R. Soares da Igreja Internacional da Graça; o Apóstolo Silvio Menezes da Igreja Evangélica Restauração e Vida, entre outros que com sabedoria e discernimento lideram vinte por cento da população brasileira.
Entre estes líderes um se destaca por certas particularidades que o conduziram a ser uma referência evangélica brasileira em todo o mundo – o Pastor Silas Malafaia, natural do Rio de Janeiro, psicólogo, presidente da Editora Central Gospel, vice-presidente do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil, organizador de vários eventos como o Congresso Pentecostal Brasileiro Fogo para o Brasil, também é presidente da gravadora Central Gospel.
Com um currículo tão extenso e tão qualificado é natural que a sua visão tenha um alcance maior que a de outros líderes evangélicos, uma particularidade nesse pastor é que boa parte da sua vida ele não presidia nenhuma igreja, era o vice-presidente da Assembléia de Deus da Penha, no Rio de Janeiro, igreja que por sinal possui cerca de treze mil membros, atualmente com a morte do presidente, seu sogro, assumiu a liderança.
Escritor de diversos livros evangélicos e de uma literatura didática utilizada por muitas denominações no Brasil, a revista Exultai. Entre os títulos de sua autoria estão Profetizando Vidas; Batalha Espiritual e Como vencer as adversidades. Há também uma bíblia que foi comentada pelo Pastor Silas Malafaia.
4 Vitória em Cristo
De todos os programas evangélicos exibidos na TV aberta do Brasil o programa Vitória em Cristo ganha destaque. Assistido por um número cada vez maior de brasileiros evangélicos, espíritas, católicos e adeptos de outros credos não cristãos, o programa é exibido em um horário incomum, todas as madrugadas, de segunda a sábado onde algumas vezes alcança a primeira posição em audiência no horário.
A primeira versão desse programa foi exibida com o nome de Impacto há 28 anos em uma emissora local no Rio de Janeiro, com o tempo o seu criador, o Pastor Silas Malafaia, pode desenvolver uma linguagem que pode interagir com os brasileiros de um modo geral. A exibição nacional passou pela TV fechada, pela rede TV aos sábados de manhã, até que nos últimos anos conquistou o público das madrugadas na Rede Bandeirantes.
A linguagem do programa Vitória em Cristo é objetiva, hiper otimista e forte, pois apesar de ser evangélica é mais direcionada para o público jovem, ou melhor, para a coorte de jovens. Com apresentações musicais, uma mensagem gravada ao vivo em algum canto do Brasil, e diversas mensagens de vários pastores das mais diferentes denominações, mensagens que elevam o espírito de qualquer indivíduo.
O sucesso desse programa pode ser atribuído pelo fato que em suas mensagens não se prega denominação, não rotula os evangélicos limitando-os a uma placa de igreja, alguns momentos se percebe que os pastores promovem a si mesmos, mas nunca se vê propaganda de igrejas.
Esse modelo de programa Interdenominacional deu tão certo que atualmente é transmitido via satélite para os Estados Unidos pela CTNI e na Europa e África pela TV Manasat 1. Dessa forma pode-se afirmar que verdadeiramente o Pastor Silas Malafaia representa a nata midiática dos evangélicos do Brasil, que se transformou em um produto de exportação de caráter cultural-religioso.
Outro ponto do sucesso do referido programa diz respeito à exploração do espaço midiático em um tempo consagrado, talvez pelo fato de ser psicólogo tenha influenciado na sua linguagem. O programa encontrou uma identificação com o espaço virtual e o tempo psicológico conciliando sagrado e profano nas idéias de Jesus que perdura até os nossos dias.
Ao deslocar o espaço dos cultos para as residências e ambientes de trabalhos, o Pastor Silas Malafaia cria uma “igreja eletrônica” mais eficiente que as originais da década de 70 onde o mais interessante é que o programa é mantido literalmente pela audiência, com uma estratégia inovadora o telespectador solicita um carnê e mantêm os custos do programa, se é certo ou errado não nos cabe julgar, apenas observar que em tempos de globalização onde não há fronteiras, nem dualismos este programa e sua linguagem midiática evangélica tem se sustentado e cativado mais brasileiros que os programas exibidos nas redes de propriedade de algumas denominações, como a Rede Record e a Rede Gospel.
Como marketing do programa o Pastor Silas Malafaia promove cruzadas evangélicas todos os anos em diversas cidades brasileiras com o nome Cruzada Evangélica Vitória em Cristo, que são mega eventos com shows musicais e mensagem que abrigam milhares de pessoas, em 2009 a cidade do Salvador foi um dos locais escolhidos para realização da cruzada, a qual aconteceu no Centro Administrativo da Bahia concentrando cerca de cem mil pessoas, entre evangélicos, católicos, espíritas, e pessoas que de um modo geral confia na integridade do pastor.
5 Considerações finais
No Brasil a liberdade de culto é garantida na constituição, assim também como a os espaços sagrados onde são realizados, abstraindo dessa realidade um pouco, é possível visualizar uma grande massa que cultua Jesus Cristo, mais que ao se fragmentar em tantas denominações perde um pouco da sua essência. O povo evangélico brasileiro tem crescido nos últimos, no entanto esse crescimento se dá paralelo ao próprio crescimento populacional, a maioria são filhos de evangélicos que perpetuam essa cultura.
Muito embora exista um emaranhado de ligações entre a política, a economia e a mídia é válido afirmar que no Congresso Nacional, nas Assembléias estaduais e até no executivo municipal e estadual a presença dos evangélicos é marcante. O prefeito de Salvador é um exemplo disso, evangélico o senhor João Henrique pertence à denominação Batista. Nos esportes está Cacá, camisa dez da seleção brasileira e tantos outros em tantos setores da sociedade que por criarem uma identidade religiosa se auto-segrega no tempo convencional que em certas ocasiões pode ser confundidos com algo anti-social.
Com o advento da Nova Era, todo o cristianismo precisa ser repensado, remodelado, para isso não basta ser pós-moderno, nem flexível é preciso repensar de modo radical, pois se trata de milhões de pessoas que depositam sua fé em algo que aconteceu há cerca de dois mil anos atrás. Assim como Martinho Lutero apareceu no cenário da história modificando a estrutura cristã que na época se encontrava falida, propondo mudanças que geraram o protestantismo e mais tarde os evangélicos. Nesse início de milênio é importante levantar questões dentro do próprio mundo cristão no intuito de acompanhar as mudanças pelas quais o mundo vem passando.
A internet ainda não ultrapassou a TV, é verdade, mas isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde, não há como impedir e com isso quais serão as adaptações cristãs no mundo material? Os celulares com tecnologia GSM e 3G já são explorados pelos evangélicos midiáticos, serviços de tele mensagem, toques, etc., tudo que existe ao ser consagrado adquire qualificação para o uso de todos que assim desejem não razão para nenhuma espécie de condenação, apenas se propõe uma reflexão sobre o mundo em que vivemos e as doutrinas cristã-evangélicas da atualidade, será que essas doutrinas são reais? Será que surtirá efeitos nas próximas gerações.
Outro ponto que irá forçar transformações no cristianismo são as mudanças climáticas, o aquecimento global, as erupções solares. A Vida como um todo terá que se adaptar em um breve tempo, e isso vai se acontecer por osmose.
A academia, por exemplo, poderia investir em pesquisas voltadas para os evangélicos, na verdade crendo que essas mudanças vão acontecer por iniciativa da ciência, já que não há interesses da parte dos líderes cristãos – evangélicos, pois o poder cega a razão do ser humano.
No mais, existem ainda esperanças que as Humanidades possam atingir um grau de maturidade capaz de se organizar com base espiritual, o que beneficiaria a todos os seres humanos, homens e mulheres, pretos ou brancos, ricos ou pobres, onde a Vida alcançará um nível em que essas classificações se tornarão fúteis.
REFERRÊNCIAS
ARAÚJO, Denise Lino de. A língua falada na TV, texto falado ou escrito? In Linguagem & Ensino, volume 6, nº 1, 2003. pp. 57-76.
BRANDÃO, Cristina. Televisão e cultura. In: O Click.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo. Martin Fontes. 1996.
SANTANA, Luther King de Andrade. Religião e mercado: a mídia empresarial-religiosa. In Revista de Estudos da Religião, nº 1. 2005. pp. 54-67.
SANTOS, Misael. Religião e Mestiçagem: o caso dos novos ritos nas igrejas evangélicas da periferia de Salvador. Salvador. UFBA, 2010.