ALEIJADINHO:
O MONSTRO SAGRADO
DO BARROCO BRASILEIRO
MISAEL SANTOS*
NARLOCH, Leandro. Aleijadinho é literatura, In: Guia politicamente incorreto da História do Brasil. São Paulo, Leya, 2009.
Narloch, brasileiro natural do Paraná, jornalista, já foi repórter da revista Veja, editor de Aventuras na História e Superinteressante, autor do livro: Guia Politicamente Correto da História do Brasil, o qual tem caráter contestador atacando basicamente os grandes mitos da chamada “brasilidade”. Por exemplo, podemos citar Zumbi como proprietário de escravos; o avião não foi inventado por Santos Dumont; a luta da ditadura militar era por uma ditadura comunista e especialmente sobre Aleijadinho. Neste último, Narloch inicia comparando-o a figuras lendárias como Frankstein de Mary Sheley, a Fera, de A bela e a fera, e Quasimodo de Victor Hugo. Para justificar a comparação recorre a uma biografia escrita por Rodrigo Ferreira Bretas no tempo do Segundo Reinado, depois com base em relatos de viajantes estrangeiros, Narloch contesta a genialidade do artista brasileiro marcada pela imperfeição de suas obras, pela desproporcionalidade, ele cita opiniões que conduz a um novo conceito de Aleijadinho, principalmente através dos modernistas, Narloch recorre a diversos discursos autorizados de intelectuais da atualidade para contestar todas as idéias originais, promovendo um verdadeiro diálogo do leitor com a história sobre vários pontos de vista.
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* Graduando da Universidade Federal da Bahia, discente do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, aluno da Professora Drª Maria do Carmo Pascoli na disciplina LETE 45 – Leitura e Produção de Textos em Língua Portuguesa, turma 38.
INTRODUÇÃO
O que há por trás de uma lenda? Um mistério? Uma tradição oral? Uma alienação? Ou interesses capitalistas? Múltiplas questões podem ser levantadas ao fazer um estudo minucioso sobre algo ou sobre alguém, porém em muitos casos é preciso ter uma visão aberta para as diversas possibilidades de interpretação dos fatos. Assim é o caso do escultor brasileiro Antonio Francisco Lisboa, mais conhecido pelo apelido – Aleijadinho.
Muitos estudos e pesquisas foram realizados a cerca deste artista desde o século XIX até os nossos dias, diversos olhares foram lançados por brasileiros e estrangeiros, filósofos, poetas, padres, entre outros que ao longo do tempo divergiram de opnião chegando até mesmo a duvidar da existência do escultor.
Nesse sentido o jornalista Leandro Narloch escreveu um texto no livro Guia politicamente incorreto da História do Brasil, cujo conteúdo interage com o leitor não apenas enquanto informação, mas incitando a desconfiar das histórias divulgadas e aceitas como verdade. Para Ingedore Vilaça Koch e Vanda Maria Elias:
Se, por um lado, nesse processo, necessário se faz considerar a materialidade lingüística do texto, elemento sobre o qual e a partir do qual se constitui a interação, por outro lado, é preciso também levar em conta os conhecimentos do leitor, condição fundamental para o estabelecimento da interação, com maior ou menor intensidade, durabilidade, qualidade. (Koch & Elias, 2008, p. 19)
No texto, intitulado “Aleijadinho é literatura”, Narloch pontua muitas questões a respeito das lendas que giram em torno do escultor mineiro, desde sua origem, sua trajetória e suas obras, o qual elucida a própria compreensão da história da cultura brasileira, levando em conta principalmente o conhecimento do leitor, pois o texto não é dirigido para historiadores ou mesmo para a comunidade acadêmica e sim para todos os brasileiros que de modo geral e superficial só tem conhecimento dos fatos históricos através do olhar daqueles que de alguma maneira manipulam e distorcem a história de acordo os seus interesses.
Sobre esse texto de Narloch, enxergando os argumentos contrários ao conceito de “discurso autorizado”, que vem a ser basicamente uma afirmação referendada por uma autoridade política, um especialista no assunto, um pesquisador, ou ainda, alguém reconhecido como autoridade, cuja opinião influencie o destino do assunto, nesse caso de Aleijadinho. Conceito este bastante utilizado pelo autor, assim teceremos alguns comentários.
1 A origem
Durante a corrida do ouro em Minas Gerais muitas igrejas foram construídas, e por se tratar de um espaço sagrado era necessário que possuem alguns adornos, principalmente imagens de escultura e pinturas. Para a confecção dessas imagens as igrejas contratavam os serviços de artesões, os quais construíam as diversas obras, não como um artista individual, mas sim como um simples operário da construção civil da época.
Segundo Narloch, existiu certo jurista, deputado estadual e diretor de ensino de Ouro Preto, cujo nome era Rodrigo Freitas Bretas, que em 1858 escreveu e publicou no Correio oficial de Minas a biografia de um artesão chamado Antonio Francisco Lisboa, que entre tantos artesões da época se destacava, segundo uma lenda contada por viajantes estrangeiros, pelo fato de possuir uma ou as duas mãos paralisadas.
Em suma, Bretas relatou que a partir dos 47 anos o artesão passou a sofrer ou de sífilis ou de lepra, que deformou seu corpo, fazendo-o perder alguns membros transformando-o em uma aberração, um verdadeiro monstro, no entanto ele não parou de produzir e continuou a esculpir diversas obras com as ferramentas amarradas ao corpo, obras essas consideradas as mais belas do barroco mineiro. Considerando a monstruosidade e a genialidade do artesão, Bretas chamou-lhe de Aleijadinho.
Ora, apesar de todo o discurso de Bretas, Narloch contesta-o com argumentos baseados em outros discursos como o do pesquisador Dalton Sala que chegou a questionar se de fato o escultor possuía alguma doença, ou mesmo se existiu. Assim também foram as consultas ao arquivo de Minas Gerais que revelaram a existência de um escultor chamado Antonio Francisco Lisboa, porém sem nenhuma doença mencionada.
A criação desse personagem levou Bretas a ser reconhecido pelo próprio imperador do Brasil - Dom Pedro II, que lhe deu o prêmio Ordem da Rosa, destinado aos melhores artistas brasileiros, o que demonstrava a sagacidade do biógrafo enquanto artista literário e não como historiador.
Bretas também virou sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que entre seus objetivos incentivava autores regionais a escrever sobre personagens lendários que retornasse orgulho para os brasileiros. O grande lance que a maioria dos brasileiros desconhece é que Aleijadinho, a princípio era um personagem da crendice popular e não um símbolo da história.
A falta de informações, de documentações que comprovem ou que revelem a existência e a trajetória de vida desse suposto personagem indicam a genialidade de Bretas como contador de história, comparado por Narloch, até mesmo a Victor Hugo quando criou Quasimodo em Notre-Dame de Paris, ou ainda a Mary Sheley com seu personagem Frankstein.
Outro argumento utilizado por Narloch é o fato de que os poetas árcades mineiros Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Basílio da Gama, que foram contemporâneos de Antonio Francisco Lisboa não escreveram uma linha sequer sobre o escultor, o que levanta a suspeita se realmente o artesão existiu.
Essa biografia-lenda de Aleijadinho é bastante útil, mas não é o suficiente para aceita-lá como verdadeira, pois aqueles estudiosos que se dispuseram a vasculhar a história dessa lenda não se contentaram apenas com historias contadas por tradições orais, já que para ciência é necessário existir fatos e não indícios. Isso Narloch transmite com louvor, pois seus argumentos não desacreditam de Bretas em nenhum instante, ele consegue colocar em cheque a origem de Aleijadinho, para que o leitor tire suas próprias conclusões.
2 A qualificação
Dentre tantas obras construídas numa mesma época, onde a maioria não era assinada pelo seu autor, exceto em alguns casos raros, como identificar e diferenciar as obras produzidas pelo monstro sagrado da arte barroca mineira – Aleijadinho? O que as tornavam especiais? Quais eram os traços de sua suposta qualidade? Para responder a essas questões Narloch vai buscar depoimentos de viajantes estrangeiros certos discursos autorizados a fim de construir uma discussão sobre o que diferenciava as obras de Aleijadinho e de que maneira essas diferenças se transformaram em qualidades artísticas e individuais do referido artífice.
Primeiro ele cita a opnião do barão de Eschwege, geógrafo alemão do século XIX, que afirma que as obras localizadas em Congonhas são “sem gosto e desproporcionadas” e confirma essa opnião com o depoimento do inglês Richard Burton que afirmou ser “repletas de gravuras sem valor, ao passo que as imagens são abaixo da crítica”. Outro discurso autorizado a que Narloch recorre é o do padre Julio Engracia que diz que as obras de Aleijadinho são “para rir as crianças”, uma vez que, os “membros deviam chamar-lhe atenção artística como rosto, mãos e pés são muitos imperfeitos”.
Inicialmente, Narloch, através desses discursos passa uma idéia de total desqualificação das obras de Aleijadinho, levando o leitor, leigo no assunto, a duvidar da própria genialidade do escultor, porém em seguida o autor do texto levanta, através de outros discursos autorizados, argumentos que mais parecem participar de um processo de negociação histórica e que contrariam as idéias cronológicas iniciais as quais chegam a atestar a grandeza artística e “sagrada” do artesão mineiro.
O primeiro argumento que justificava as irregularidades de suas obras surgiu no século XX através dos modernistas: Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral que chegaram a seguinte conclusão – as obras imperfeitas criadas por Aleijadinho não eram defeituosas porque o artesão não sabia fazer melhor e sim, porque ele queria fazer daquela maneira, como se o artista transmitisse alguma mensagem ideológica através das imagens e esculturas, principalmente por ser mulato, filho de escrava e viver em tempos de luta antiescravista, e ainda essas obras deformadas seriam réplicas do estado de espírito do escultor, doente e mutilado.
Narloch também vai buscar em Gilberto Freire outra justificativa para as imperfeições de Aleijadinho, este sugeriu que essas obras eram frutos de sua revolta pessoal pela condição de mulato, retratadas principalmente nas figuras deformadas dos capitães romanos, representadas como senhores “brancos”.
O historiador de arte francês Germain Bazin, em seu livro Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, afirma que as obras malfeitas associadas a Aleijadinho não foram construídas por ele, e sim por seus assistentes, como se escultor possuísse muitas encomendas, e para dar conta solicitava a ajuda de aprendizes, o que de certo modo justificava as irregularidades, porém retirava dele a autoria de muitas obras. De fato essa afirmação procede, pois as irmandades contratavam os serviços dos artesões, e estes possuíam oficinas com diversos assistentes.
Esse mesmo argumento é reiterado no livro Aleijadinho e sua Oficina, onde os pesquisadores Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Antonio Fernando Batista dos Santos juntamente com estudioso Olinto Rodrigues dos Santos Filho do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, afirmam que só um terço das estátuas de madeiras de Congonhas foram criadas por Aleijadinho, com a prerrogativa de que se Aleijadinho era verdadeiramente um gênio barroco, tudo aquilo que não fosse genial não poderia ter sido criado por ele.
Através desses argumentos, Narloch demonstra que a história primeiro desqualifica as obras caracterizadas pela desproporcionalidade negando-lhes qualquer valor, atribuindo-lhes apenas a autenticidade do escultor, depois nasce a idéia de que os erros de simetria, as irregularidades davam ao autor uma qualidade ideológico-artística e um segundo argumento veio negar a autoria de obras imperfeitas por Aleijadinho, apesar de existirem recibos e atas que comprovam a autoria dessas obras por Antonio Francisco Lisboa.
Em que acreditar? Se por trás de cada argumento existem interesses subjetivos diversos “puxando a sardinho para seus respectivos lados”. Por um lado fica subentendido que o Brasil caiu numa cilada histórica onde naturalmente os estrangeiros não tinham nenhum interesse em qualificar as obras brasileiras, se para eles o padrão de arte era “diferente” e seus conhecimentos vastos, sua visão de mundo era outra, e por outro lado, nós os brasileiros representados por uma das maiores expressões brasileiras da arte – o modernismo, erguia a “brasilidade” e enaltecia a cultura brasileira que justificou as irregularidades das obras transformando-as em qualidades do escultor brasileiro de obras sagradas considerando-o um gênio.
3 Considerações finais
De um modo geral, no texto de Narloch se destaca a intencionalidade do autor quando ele nos revela diversas leituras de uma mesma história, é como se o objetivo do texto não fosse o de convencer o leitor a aceitar uma das histórias como verdadeira, e sim fazer com que o leitor admita a possibilidade de várias histórias serem verdadeiras. O conceito teórico de intencionalidade, que nos baseamos é o de Maria da Graça Costa Val, que afirma:
A intencionalidade concerne ao empenho do produtor em construir um discurso coerente, coeso e capaz de satisfazer os objetivos que tem em mente numa determinada situação comunicativa. (Costa Val, 2006, p. 10)
Se a intenção de Narloch foi acordar, ou melhor, abrir os olhos dos brasileiros para que fiquemos atentos as “pegadinhas” das histórias contadas por terceiros, creio que ele conseguiu atingir este objetivo, ainda que muitos dos seus argumentos venham ter como base a literatura, o que não desqualifica o autor.
Quanto à origem de Aleijadinho e a qualificação de suas obras não tenham em si interesse pela maioria dos brasileiros na atualidade, sem acesso ao conhecimento das artes, sendo assunto apenas para um seleto grupo de colecionadores e poucos historiadores, ou ainda, um número relativamente mínimo de críticos e conhecedores de arte no Brasil, temos a consciência as verdades absolutas sobre essas polêmicas não transformará a situação social do Brasil, contudo é mais interessante que essas discussões continuem e apareçam outras explicações sobre o escultor mineiro e suas obras, alimentando o ego daqueles que foram privilegiados pela concentração de renda e que por esse motivo tem tempo suficiente para investir em descobrir verdades tão supérfluas.
O importante é discernir com a consciência de que nem tudo que ouvimos falar é verdadeiro, averiguar se existem outros olhares para um mesmo fato, exercitar uma consciência crítica capaz de acrescentar, ou seja, que venha somar em nossa formação intelectual e então venhamos olhar para as Humanidades e compreende-las a ponto de ter condições para transformar a nossa sociedade.
REFERÊNCIAS
NARLOCH, Leandro. Aleijadinho é literatura, In: Guia politicamente incorreto da História do Brasil. São Paulo, Leya, 2009.
KOCH, I.V. ELIAS, V.M. Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2008
VAL, Maria da Graça Costa. Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/guilherme-macalossi-comenta-o-livro-de-leandro-narloch/, acessado em 10 de setembro de 2010.